Acaba de sair a lista de indicados ao Oscar 2012 (sim, acaba… mas é que passei tanto tempo editando este post que já são quase 16h30! Acho que isso explica porque às vezes eu fico tanto tempo sem postar nada…). Bom, todo mundo conhece o Oscar e sabe que todo ano tem aqueles absurdos de causar vergonha alheia - como por exemplo, a indicação (e posterior vitória) de gente como Gwyneth Paltrow e Sandra Bullock (não, até hoje não tive coragem de conferir o filme pelo qual ela venceu), além de sempre ter uns filmes bem “meia boca” na rodada. Mas convenhamos que é muito bom conferir a lista e nela encontrar gente como Gary Oldman, Glenn Close e Max Von Sydow concorrendo pelas suas atuações - isso sem falar nos filmes incríveis como “Árvore da Vida“, de Terrence Malick, e “Meia-noite em Paris“, do Woody Allen concorrendo nas categorias de Melhor Filme e Melhor Direção. E ainda que estes provavelmente não cheguem nem perto do prêmio (não por falta de mérito, porque se fosse por isso já estavam com seus troféus garantidos) , mesmo assim é ótimo ver essa gente (e, principalmente, esses filmes!) que a gente gosta com seus nomezinhos constando na sempre controversa lista. Bom, mas o fato é que se as tais indicações não vão mudar nada na história da arte, também não vão estragar artistas como Woody e Malick, que são bons já há bastante tempo – e que desta vez voltaram simplesmente fenomenais. Bem feito pro Spielberg, que apesar de ter emplacado seu novo “água-com-açucar-caça-níqueis” na categoria de Melhor Filme, o drama “Cavalo de Guerra“, adaptação do livro homônimo de Michael Mopurgo que virou uma peça “água-com-açucar-caça-níqueis” vencedora do Tony em 2011 (não, eu não assiti a nenhum dos dois - nem a peça, nem o filme - e nem quero! A menos que você queira me pagar uma passagem até Nova Iorque pra eu ver essa chatice na Broadway… daí até aceito; me presto a ir ao teatro e então prometo dormir tudo o que eu provavelmente não dormirei nos dias/noites em que estiver por lá); bom, voltando: parece que finalmente acabou o fetiche dos anos 90 e o chato do Spielberg dessa vez NÃO entrou na lista de melhor diretor, e não está ao lado dos grandes Malick e Allen, e com o mestre Martin Scorsese, que concorre esse ano com “A Invenção de Hugo Cabret“.
Terrence Malick filmando "A Árvore da Vida".
Bom, tudo isso pra dizer que eu tinha preparado a minha lista de melhores de 2011, mas como tava com preguiça de postar aqui, deixei pra esta ocasião. Portanto, aproveito pra deixar registrado quais foram os 10 “melhores” filmes, na minha opinião (er… bem… pra falar a verdade são 9 – só pra me equiparar ao Oscar em alguma coisa… e preciso dizer que são os “melhores” dentre aqueles poucos filmes que eu consegui assitir em 2011 – e isso, é claro, obedecendo a regra desse tipo de lista, que só aceita filmes que tenham estreado no Brasil no ano em questão! Creio que isso basta pra explicar a presença do filme dos irmãos Coen na minha seleção, ok?). O bom disso tudo é que - assim como no Oscar – a minha lista também traz o novo Terrence Malick e o novo Woody Allen entre os escolhidos:
Melancholia
OS MELHORES DE 2011
(em ordem de preferência)
“AÁrvore da Vida“, de Terence Malick
“Melancholia“, de Lars Von Trier
“Meia-noite em Paris“, de Woody Allen
“A Pele que Habito“, de Pedro Almodóvar
“Cisne Negro“, de Darren Aronofsky
“127 Horas“, de Danny Boyle
“Lixo Extraordinário“, de Lucy Walker, João Jardim e Karen Harley
“O Vencedor“, de David O. Russel
“Bravura Indômita“, de Joel e Ethan Coen
Ah, e uma dica: se por causa dessa função de indicações ao Oscar e tal “ AÁrvore da Vida” for relançado nos cinemas, não perca a oportunidade: junte as suas moedas, se for necessário; fume um ou beba alguma coisa antes de sair de casa, mas faça esse favor para a sua existência incompleta: assista a essa obra-prima na telona! O deleite visual e sonoro que ela proporciona é algo incomparável.
2012 finalmente começou e com ele iniciei também a leitura daquela que é considerada uma das mais fantásticas HQs da história: Incal, roteirizada pelo chileno Alejandro Jodorowsky e desenhada pelo francês (Jean Giraud) Moebius, numa empreitada que durou cerca de 10 anos. Já tinha ouvido falar deste clássico algumas vezes: primeiro foi no sensacional Dias Perigosos (documentário com nada menos do que 4 horas de material extra onde Ridley Scott e os criadores de Blade Runner contam em detalhes como foi a façanha de levar aos cinemas o filme que revolucionou não apenas a ficção científica como também toda uma era – os anos 80 - dando uma cara definitiva para a nascente cybercultura); Depois, foi no fim do ano passado, durante uma conversa de bar com o Mário Bortolotto e o Bruno Bandido, quando eles me recomendaram a HQ (e mais algumas que serão meus próximos alvos neste ano). E no meio disso ainda teve o meu amigo Diego Machado, que certa vez - após uma conversa sobre Akira, Sci-Fi, Moebius, etc. - me mandou via Facebook uma imagem de uma das páginas do livro (ou foi isso, ou eu sonhei com isso; juro que ainda não sei!). Não importa: o importante é que, como naquelas histórias em que todos os pontos acabam te empurrando pra um mesmo objetivo - ou todas as músicas do flautista te conduzem suavemente pro mesmo desfiladeiro – eu acabei comprando no mês passado o 1º Volume (publicado aqui no Brasil pela Devir Editora, e que contém os tomos 1 e 2 da série original: O Incal Negro e O Incal Luminoso) e só estava esperando o momento ideal pra começar a ler (leia-se: decifrar cuidadosamente as imagens incríveis concebidas pela dupla de visionários).
Portanto, eu diria que nesse momento me encontro mergulhado no universo da ficção científica (o que pra mim não é nenhuma novidade, já que estou sempre ali, creio que desde que vi Blade Runner pela primeira vez na TV, numa madrugada lá pelos meus 8 ou 9 anos - sozinho e completamente fascinado com aquilo tudo); Aliás, sou tão fascinado por ficção científica e por Blade Runner que até já vi o filme no cinema, num festival da Warner que passou por aqui final dos anos 90, no qual tive a sorte de assistir também na tela grande Disque M Para Matar, do Hitchcock; Bonnie & Clyde, de Arthur Penn, e talvez algum outro que não me ocorre agora; mas Blade Runner eu assisti em duas sessões seguidas – ambas lotadas, é claro! – além das incontáveis vezes que assisti na TV, no videocassete e depois no DVD (da versão original lançada nos cinemas americanos - com aquela V.O. de filme Noir totalmente anticlimax - até a atual, lançada no final de 2007 e considerada a Final Cut!); além disso, escrevi uma peça que se inspira no mesmo universo criado pelo escritor Philip K. Dick (um texto que comecei lá em 2006 e que de tempos em tempos passa por novas revisões – a última vez, foi há pouco mais de um mês – e que tá ficando cada vez melhor, apesar das críticas desestimulantes dos meus compreensivos amigos na época em que enviei a eles a primeira versão para que lessem). Opiniões, sabem como é… o tempo passa e a gente aprende a dar cada vez menos importância a elas. Em breve espero levar a peça aos palcos, mas isso ainda é coisa pro futuro.
As outras boas notícias são os filmes que vão estrear em 2012. São muitos os que eu quero ver, é verdade, mas (por uma questão de concisão) vou falar apenas de dois: Millennium 1 – Os Homens que Não Amavam as Mulheres, do David Ficher (do ótimo Clube da Luta, e do morno A Rede Social) e Batman – o Cavaleiro das Trevas Ressurge, do Christopher Nolan (dos impressionantes Batman – O Cavaleiro das Trevas e A Origem). O primeiro é a adaptação americana do primeiro volume da série de suspense, um estrondoso sucesso do escritor e ativista Stieg Larsson, e estreia por aqui dia 12 de Fevereiro; o segundo dispensa apresentação: no último capítulo da trilogia dirigida por Nolan, Batman encontra Bane, e só isso já nos deixa com um frio na espinha (na do Homem-morcego eu não sei se posso dizer o mesmo… se for como nos quadrinhos, definitivamente não!). Esse tem previsão de estreia lá pelo segundo semestre. Sobre o primeiro só ouço/leio maravilhas (e isso desde que o livro foi traduzido para o Português, lá por 2009); sobre o segundo, só o que posso é recomendar é que vejam o trailer oficial pra se ter uma ideia de como vai ser a coisa toda:
Bom, esse é mais um post de “Bem-vindo, 2012!”, por isso vou deixar pra falar mais sobre os assuntos acima nos próximos dias. Agora vou sair pra aproveitar um pouco as férias, como parte da população deve estar fazendo por aí. Mas antes, uma coisa apenas: tenho sonhado direto com quadrinhos, e como a minha formação intelectual pode ser definida em 3 estágios - iniciada com leitura maciça de quadrinhos, ainda na infância; depois expandida com cinema (e mais quadrinhos!); por último, consolidada por boa literatura e bom teatro na adolescência (e mais cinema!). Portanto, esses sonhos só podem estar indicando bons augúrios.
Hotel Fuck - Num Dia Quente a Maionese Pode Te Matar
E por falar nisso, mais uma coisa – ainda sobre cinema e quadrinhos: Nove Mentiras Sobre a Verdade e Hotel Fuck, duas das minhas mais estimadas (e mais recentes) peças percorrerão várias capitais do Brasil em 2012. Pra saber quais, acesse:
(Este texto foi publicado originalmente no site Laikaclub.com, mas antes disso havia sido escrito para ser apresentado no programa Colunas de Teatro, da Band News FM, onde foi lido numa versão inicial pela atriz e apresentadora Deborah Finocchiaro, no dia 12 de Março de 2011. Para ouvir o programa, clique aqui).
por Diones Camargo*
Durante dias pensei em jeitos de me apresentar e estrear essa que será a minha coluna mensal aqui neste site. Imaginava, não sem certa razão, que o primeiro texto deveria ser algo impactante, algo que capturasse imediatamente a atenção dos leitores. Com esse objetivo, digamos, pouco modesto, me vi diante da dúvida a respeito do que escrever: o que poderia interessar a leitores que eu ainda não imagino quais sejam e que provavelmente ainda não conhecem o meu trabalho como escritor e dramaturgo. “Sobre o que escrever?” – o grande dilema dos autores no mundo todo agora aqui, na minha frente, piscando insistentemente na tela do computador. Decidi então escrever sobre o próprio ato da escrita – o grande clichê de autores no mundo todo – mas que, felizmente, quase sempre funciona.
As pessoas me perguntam por que eu escrevo. Por que, dentre tantas formas de expressar aquilo que eu filtro do mundo, eu optei pelas palavras? Respondo sempre que é por dois motivos: primeiro, porque eu adoro ficar sozinho – aprecio o silêncio e sinto que sou uma boa companhia para mim mesmo – e, pra um escritor, há poucas coisas mais importantes do que isso; segundo, porque esta é a melhor forma que encontrei pra organizar as minhas ideias. Numa época como a nossa, em que vivemos cercados de informações, imagens, ruídos e discursos contraditórios, uma pessoa pode passar a maior parte da sua existência tentando dar algum sentido a coisas que, por natureza, não têm sentido algum. Por isso, ao escrever, eu crio a ilusão – pessoal e momentânea – de que tudo finalmente se encaixa, mesmo que de um jeito por vezes caótico. Em outras palavras: eu me entendo como sujeito a partir daquilo que vejo à minha frente, materializado através da escrita, que é sem dúvida a minha maior paixão e o meu grande desafio.
Normalmente, a pergunta acima vem acompanhada de outra, mais difícil de ser respondida: “e por que narrativa ficcional?”. Por que não me valho da minha desenvoltura com as palavras e me dedico apenas a produzir longos ensaios ou artigos acadêmicos, por exemplo, que me trariam títulos e mais títulos dentro das universidades, os quais eu poderia pendurar na minha sala e então me vangloriar deles pro resto dos meus dias (mesmo que eu nunca venha a fazer nada de memorável em outros aspectos da minha vida)? A resposta que me vem à cabeça é: “porque eu adoro ouvir histórias!” Adoro ouvir relatos e minha imaginação se envolve com eles, como se a narração pudesse ser transformada a qualquer momento (e, de fato, pode). Talvez por isso, por eu gostar tanto de ouvir outra pessoa contando como ela enxerga o mundo e como o mundo faz o seu trajeto dentro dela, é que meu impulso é o de participar dessa tradição, criando eu também as minhas próprias histórias, ou recriando histórias que eu aprendo com os outros.
Porém, algumas vezes, uma última dúvida persiste: “por que contar histórias NO teatro?” Por que, tendo certo talento para trazer à vida personagens e situações inventados, eu fui optar logo pelo terreno mais incomum para um escritor, cuja obra obtém muito mais espaço e destaque quando escrita em prosa, ou mesmo se criada em forma de roteiro cinematográfico para posteriormente ser transformada em um filme, por exemplo. “Por que o Teatro?”. E é a partir daí que eu já não sei mais responder. Aí então eu me pego no meio do caos que existe de mim. Nesse lugar revolto e paradoxalmente harmônico, penso apenas que é porque eu amo o teatro, mas sei que pensar nesse amor não esclarece nada sobre ele e não exclui as outras possibilidades. É o que sinto, simplesmente. Sei que para algumas pessoas a paixão pelo teatro e pelas palavras muitas vezes parece contraditória, mas de fato esses elementos estão intimamente conectados, como amantes que estão ligados às juras de amor que trocam entre si. E por fim, sem saber responder a todas as perguntas do mundo, eu, um cara afeito às palavras, me calo diante do mistério das paixões.
* DIONES CAMARGO é dramaturgo e escritor, autor das peças Hotel Fuck, Nove Mentiras Sobre a Verdade, Andy / Edie, Parque de Diversões, além das inéditas Elevador, Peça Comercial e O Tempo Sem Ponteiros. É também dramaturgista dos espetáculos Peru, NY, Teresa e o Aquário, O Mapa e Buarqueanas. É criador do blog Normal People Bore Me, onde escreve regularmente. Em breve pretende publicar o seu primeiro livro de contos.
Faz mais de um ano que estou afastado deste blog e o máximo que andei postando foram e-flyers de divulgação das minhas peças e coisas assim. Essa falta de assunto por aqui fez com que os meus leitores habituais debandassem e (pelo visto) nunca mais retornassem, o que me deixou em dúvida se valia a pena reativar essa bagunça ou se eu deveria me dedicar a algum tipo de atividade menos, digamos, ”literária”. Porém, relendo o post fundador desse blog, percebi que enquanto estive na ativa (isso é, escrevendo pensamentos soltos e absurdos que por sorte despertavam interesse de algumas pessoas) este blog cumpriu perfeitamente aquilo a que havia se proposto: ser um depositário incerto de bobagens e questionamentos que me passavam pela cabeça, escritos de um jeito rápido e sem maiores pretensões literárias. Diante disso, cá estou eu, de volta, em frente àquele que intitulo ”o primeiro post do resto de nossas vidas“. Sei que provavelmente não será o primeiro post do resto da vida de ninguém, talvez nem da minha própria, mas imaginei que um título assim chamaria a atenção pra que os leitores sumidos resolvam dar uma passadinha por aqui pra ler o que eu escrevi, tendo imediatamente certeza de que não se trata de divulgação das minhas peças. Aliás, vocês foram ver alguma delas? (Respondam no final deste post, no espaço reservado para isso). Se não foram, uma ótima notícia: em Setembro nada menos que 3 delas serão apresentadas durante o 18º Porto Alegre em Cena: Nove Mentiras Sobre a Verdade, Hotel Fuck – Num Dia Quente a Maionese Pode te Matar e O Mapa_ (na mostra de Teatro de Rua / Descentralização). Quem quiser, vá assistir. Mas quem não quiser, nem precisa se desculpar depois… é só contrangedor. Abaixo, a lista dos espetáculos selecionados para o festival:
Fonte: Contracapa ZH
PS: Se alguém achou que eu tinha parado de divulgar meu trabalho por aqui percebe agora que estava completamente enganado.
Dramaturgia Líquida – Assimilação de Influências no Texto Teatral
Com Diones Camargo*
Voltada ao público em geral, esta oficina abordará os diferentes métodos de criação dramatúrgica, desde a escrita de cenas até a sua transposição para o palco. A partir da análise de peças teatrais e roteiros escritos para o cinema, serão comentados os principais elementos que estruturam e movem uma narrativa. Além disso, durante os encontros os alunos irão criar as suas próprias cenas e terão a oportunidade de experimentá-las com atores e diretores convidados, proporcionando assim uma visão mais abrangente do processo criativo na dramaturgia.
Conteúdo Programático: – A escrita dramática: linguagem e códigos da representação; – As possibilidades narrativas no teatro contemporâneo; – Fragmentação e o tema unificador: análise do sentido da obra; – Assimilação de influências criativas no texto autoral; – A utilização das referências culturais na dramaturgia.
De 14 de Março a 30 de Maio de 2011 – Segundas, das 20h às 22h30h. Investimento: 3x de R$ 180,00 (pagamentos em cheques pré-datados – 10% de desconto à vista).
* DIONES CAMARGO é dramaturgo, autor das peças Hotel Fuck, Nove Mentiras Sobre a Verdade,Andy / Edie (Prêmio Funarte de Dramaturgia 2005), Parque de Diversões, além das inéditas Elevador (Prêmio Funarte de Estímulo à Dramaturgia 2007), Peça Comercial e O Tempo Sem Ponteiros. É também dramaturgista dos espetáculos Peru, NY, Teresa e o Aquário (VIII Prêmio Palco Habitasul), O Mapa_Prédio 255 e Buarqueanas.
“Nove Mentiras Sobre a Verdade” retorna na próxima semana para apenas 04 apresentações dentro da programação do Porto Verão Alegre: dias 25 e 26 de Janeiro, e 01 e 02 de Fevereiro.
Quem ainda não assistiu, garanta seu ingresso nos pontos de venda. Quem já assistiu, assista novamente:
Com todo o respeito, mas que grande FIASCO os jurados do Prêmio Açorianos de Teatro 2010 não indicarem a atriz Fernanda Petit como Melhor Atriz pelo seu trabalho em Solos Trágicos, hein???!!!
Se um prêmio como este visa eleger OS MELHORES do ano e colocá-los lado a lado, é inadmissível que uma interpretação inquestionavelmente forte e arrebatadora como a desta atriz fique de fora da lista!
Eu, um artista indicado ao prêmio pelo meu trabalho em dramaturgia, fiquei pensando se estou mesmo ao lado dos melhores da minha categoria ou se pode haver algum sujeito perdido nesta cidade e que também não está concorrendo, a despeito do indubitável mérito artístico do seu trabalho.
E por acreditar na seriedade do prêmio e nos nomes dos jurados envolvidos, imagino que deva existir alguma explicação para tamanho disparate, mas preciso registrar que – até aqui ao menos – esta me foge completamente (assim como à maioria da classe teatral de Porto Alegre).
Àqueles que concordam com o que escrevi acima, peço que compartilhem esta mensagem com seus amigos, do jeito que lhes for possível.
Certa noite, no infernal Dezembro de 2008, Carol Bianchi, Fê Mandagará e eu resolvemos sair para beber. Como sempre passamos dos limites quando o assunto é drinks (especialmente drinks for free), desta vez não foi muito diferente. Nossas ações disparatadas – que incluem a invasão a uma festa privada nos fazendo passar por agentes do governo paquistanês, um lual no cais do porto onde a fogueira era uma fileira de navios incendiados, partidas tensas de um misterioso – e incompreensível (pros outros, é claro) – jogo paquistanês valendo relógios e carteiras, além de furtos de automóveis no estacionamento apenas para arremessá-los no meio do rio – acabaram gerando uma série de fotos constrangedoras, que até hoje são usadas contra nós em situações extremas. Não bastasse, um dos convidados registrou as imagens abaixo, mostrando toda a desenvoltura de um coelho alcoólatra. Hoje, passados quase 2 anos desse… qual a melhor palavra para definí-lo?… desse (escolha a palavra que mais lhe aprouver e deposite aqui) evento dionisíaco, nenhum dos três consegue lembrar com exatidão como acabou aquela noite. Nosso único comentário compartilhado a respeito desta apropriadíssima amnésia alcoólica é: …ainda bem.
Na manhã de Quinta, 11 de Novembro de 2010, o Hotel Fuck foi interditado e todas as reservas foram temporariamente canceladas devido à uma série de incidentes sanguinolentos, incluindo 4 assassinatos e 1 suicídio. O caso é intrigante, uma vez que uma das vítimas teria sido assassinada 2 vezes! A previsão para a reabertura do hotel é Abril de 2011, após toda a área ser averiguada.
O estabelecimento sempre foi visado pelos investigadores locais, tendo um longo cadastro pela polícia, devido a atividades ilegais dos seus frequentadores assíduos, desde uso e tráfego de drogas à estupros e homicídios. Também está ligado ao desaparecimento de muitas prostitutas e ao aparecimento de partes de corpos de outras tantas. Trataria-se de um serial killer, segundo os investigadores responsáveis pelo caso, mas ainda não há certeza por parte da polícia.
Duas suspeitas e uma testemunha foram vistas rondando o local horas antes dos crimes. A testemunha foi vista entrando no hotel com um maço de papéis manchados de sangue. Já as duas suspeitas podem ser reconhecidas uma pela mão postiça que usa, e a outra por ter-se machucado após as lutas violentas travadas dentro dos quartos; esta, aliás, hoje encontra-se mancando e com o cabelos tingido de vermelho sangue.
Pedimos à população que, caso obtenham qualquer informação adicional, entre em contato com as autoridades competentes, para que assim os mistérios ocorridos no lugar sejam elucidados e o Hotel Fuck possa, enfim, reabrir as suas portas em 2011.
Agradecemos a sua colaboração.
GORDON LISH
Detetive e Investigador – Departamento de Polícia do destrito de Sin City
Teresa e o Aquário (2009). Foto: Bruno Gularte Barreto
DRAMATURGIA LÍQUIDA – Assimilação de Influências no Texto Teatral
Nível Básico – 06 encontros
Inicia no dia 17 de Novembro a oficina ministrada por Diones Camargo, que abordará os diferentes métodos de criação dramatúrgica, desde a escrita isolada ou colaborativa, até sua experimentação no palco. Durante os encontros, a partir de exercícios e de cenas criadas pelos alunos,serão analisadas as possibilidades narrativas no teatro contemporâneo, a assimilação de interferências criativas na dramaturgia, o espaço do autor e a linguagem como sentido da obra. Ao final do curso, cada cena refletirá o processo escolhido pelo seu respectivo autor.
Conteúdo Programático:
A escrita para teatro: linguagem e códigos da representação;
As possibilidades narrativas no teatro contemporâneo;
Fragmentação e o tema unificador: análise do sentido da obra;
Assimilação de influências criativas no texto autoral;
A utilização das referências culturais na dramaturgia.
De 17 de Novembro a 22 de Dezembro de 2010 – Quartas, das 19h às 22h
Investimento: R$ 250,00
Diones Camargo é dramaturgo e escritor, autor das peças Hotel Fuck, Nove Mentiras Sobre a Verdade,Andy / Edie (Prêmio Funarte de Dramaturgia 2005; Indicada ao Prêmio Açorianos de Teatro 2006 – Melhor Dramaturgia) e Parque de Diversões, além das inéditas Elevador (Prêmio Funarte de Estímulo à Dramaturgia 2007), Peça Comercial e O Tempo Sem Ponteiros. É também dramaturgista dos espetáculos Teresa e o Aquário (VIII Prêmio Palco Habitasul – Melhor Roteiro; indicado ao Prêmio Açorianos de Teatro 2010 – Melhor Dramaturgia) Peru, NY e Buarqueanas.
Estreia Sexta, dia 22 de Outubro, às 20h, no estacionamento da Usina do Gasômetro. ENTRADA FRANCA. Não tem desculpa pra não ir.
Garotas com cinta liga e armas em punho, massacres, assaltos a bancos, fetiches e perversões, algemas, couros e muffins, perseguições implacáveis, apostas mal-sucedidas, trocas de identidades, travestismo, esquartejamentos, revelações místicas trazidas por Leatherface, garotões que amam suas Magnum 44, corações partidos, sexo e sangue… muito sangue. Onde? No Hotel Fuck, baby.
Um psicopata que decide parar de matar; Uma prostituta frustrada com sua imortalidade; Uma “bonequinha” sem mão em busca de vingança; Um detetive durão que não passa de um ex-ator aprisionado em seu personagem; uma diretora fetichista e dominadora à procura do seu próximo roteiro; uma diva pornô excêntrica, egoísta e radicalmente egocêntrica; um transexual dividido pela culpa; uma revelação mística trazida por Leatherface; Um pôster do James Dean; um papel de parede de pintura rupestre; um vestido da Marilyn Monroe. Não, não se trata de uma civilização primitiva. E não. Isso não é uma comédia.
Isso é um HOTEL, e isso é FUCK.
Santa Estação Cia de Teatro apresenta:
HOTEL FUCK – Num Dia Quente a Maionese Pode Te Matar
Direção: Jezebel de Carli
Texto: Diones Camargo
Estreia:
Sexta, dia 22/10 – Episódio 1 – Cavando a Porta do Inferno
Sábado, dia 23/10 – Episódio 2 – Uma Temporada no Paraíso
Domingo, dia 24/10 – Episódio 3 – Eles Atiram em Lobos
De 22 de Outubro até 21 de Novembro, sempre às 20h, em frente
à Usina do Gasômetro. ENTRADA FRANCA (com retirada de senhas 1 hora antes de cada espetáculo).
Hoje estarei presente em dois debates sobre dramaturgia, um dentro da programação do 17º Porto Alegre em Cena e o outro no V Aldeia SESC Capilé São Leopoldo, ambos listados (de última hora, eu sei) abaixo. Aquele que ler este post a tempo e tiver algum interesse no assunto, apareça pois os dois eventos têm entrada franca.
12h15 – Processos Criativos em Dramaturgia
Em face das questões que a contemporaneidade traz à arte, quais as possibilidades e caminhos para a escrita teatral? O texto composto a partir dos ensaios com os atores em sala ou o trabalho que vem à luz em progresso são algumas das variantes.
Participantes:
Samir Yazbek, SP (Dramaturgo e diretor)
Ana Teixeira, RJ (Dramaturga e diretora – Cia. Amok Teatro)
Diones Camargo (Dramaturgo)
Mediação: Valmir Santos (Jornalista)
Quando: 24 de Setembro de 2010, das 12h15 às 13h30.
Onde: Casa de Teatro de Porto Alegre – Rua Garibaldi, 853 – Porto Alegre (Fone: 51 3029.9292)
Petit, não cai nesse papo de “vidinha”, porque isso é coisa de quem joga videogame. Que vidona, isso sim! Garotões fazendo Lap Dances só pra gente; trilha de drinks no chão; fortunas gastas em cassinos animadíssimos; show da Britney (dopada) ao vivo; torcer pra que nossa amiga lésbica vença na queda de braço; desviar de tiros imaginários; revidar atirando com o joelho; dar uns beijos no garotão do caixa só pra zerar nossas comandas; falar com um macaco; contar as nossas angústias pra um caixinha de risadas; outra trilha de drinks no chão; acertar os detalhes do próximo assalto com nossa amiga travesti; dançar no “pau-de-puta” com uma puta de luxo e não conseguir parar de cair no chão; rir de vídeos do Youtube acessados num Iphone roubado por nossa amiga espiã oriental; “Blueberries, blueberries…ohhhhhh” e um corpo saltando na mesa ao lado; voltar e dizer ao garotão do caixa que ele se enganou e cobrou menos do que deveria e ainda baixar uma nova rodada pra galera e depois ir até atrás do balcão pagar a enorme dívida acumulada, etc… Esses são apenas alguns dos momentos emocionantes que passamos juntos nesses últimos meses. Enfim, esse negócio de vidinha (e de dormir cedo) definitivamente não é pra nós, baby. Beijo
PS: Adorei a tatuagem que você fez em mim ontem no bar, só não consigo entender o que é, agora que a bebedeira passou… mas tudo bem, tá linda do mesmo jeito.
Coquetel de Pré-estreia, dia 16 de Junho, às 20h, somente para convidados.
PERU, NY
A morte de Steven Adinoff por quem não o conhecia
Direção: Ian Ramil e Tatiana Vinhais
Dramaturgia: Diones Camargo e grupo.
Um processo caótico da relação entre atores, diretores e dramaturgo, ele disse, inspirado por ritmo, melodia, arranjo e depois, depois desses elementos, letra. Inspirado por três pontos… Ou inspirado por três pontos, ela disse: As referências sabemos de três apenas: Peru, livro de Gordon Lish, Synecdoche, NY, filme de Charlie Kaufmann e, como ponto final, ela disse, como ponto de união, ele disse, o ponto das memórias pessoais dos atores; lembranças mentais e corporais dos atores/espaços/imagens, ligados diretamente como uma rede de informações ilógicas e completamente coerentes, ele disse, ilógicas e coerentes, completamente coerentes.
Matar um coleguinha é um bom objetivo pra vida de um garoto de seis anos? Se deve matar alguém com seis anos? Quando se deve matar? O que se matou? Entendi, ele disse, lábio leporino, ele disse, mais as coisas que você conectar, ele disse. Essas coisas que a gente não sabe nunca o que é, ele disse, mas são coisas que a gente sabe que estão todas misturadas, coisas que estão misturadas a todas as coisas que a gente acha que não pode ver, ele disse, mas estão ali e a gente sabe que as coisas estão ali, ele disse, elas sempre estão ali.
17 de Junho a 08 de Julho de 2010
20h
LA PHOTO – Travessa da Paz, 44 – Brique da Redenção.
20,00 – inteira.
10,00 – estudante, idoso, classe artística.
Elenco:
Francine Kliemann.
Leticia Pinheiro.
Sofia Ferreira.
Thiago Prade.
Thiago Tavares.
Orientação Acadêmica: Sílvia Balestreri Nunes.
Figurinos: Ana Hoffmann, Carmela Moraes e Letícia Pinheiro.
Cenografia: Eduardo Montelli, Juliano Ventura e Isabel Ramil.
Arte Gráfica: Eduardo Montelli.
Iluminação: Ian Ramil e Tatiana Vinhais.
Trilha Sonora Pesquisada: Ian Ramil e Tatiana Vinhais.
Faz mais de um mês que não posto nada neste blog, então pode parecer que eu não tenho escrito mais, porém só o que eu tenho feito nos último meses é escrever. Por isso fiquei pensando que o melhor era dar uma passadinha por aqui e deixar algum texto nestas páginas. Talvez algum que já não seja inédito ou que eu não me importe de mostrar aqui antes de em qualquer outro lugar/meio. Daí semana passada eu estava assistindo a uns trechos do DVD da cerimônia do Prêmio Açorianos de Teatro deste ano (esta mesma que foi anunciada no post anterior, e a qual eu escrevi o roteiro) e me ocorreu selecionar e postar aqui alguns dos textos que eu criei especialmente pra o tal evento.
Sei lá se essa é uma ideia idiota ou não - na verdade não me importo muito se for, porque eu já não tenho tanto medo de ser idiota, agora que eu me acostumei com a ideia - mas é que quem não foi à cerimônia, nem viu pela TV, terá agora uma chance de saber sobre o que alguns dos esquetes tratavam. E os que foram ou assistiram pela TV terão acesso agora à versão original destes esquetes, sem os cortes feitos posteriormente pela CAC (Coordenação de Artes Cênicas), que barrou algumas piadas consideradas exageradas. E ambos – tanto os que já assistiram quanto os que não sabem nem do que se trata – terão acesso a um outro texto que permanece inédito, pois foi cortado por mim devido ao tempo do espetáculo. Portanto, os textos estão organizados em quatro momentos: a apresentação, a esquete do prêmio de Melhor Ator e Atriz Coadjuvantes, o esquete inédito e alguns trechos reunidos (que eu só vou compilar e postar aqui daqui alguns dias, portanto volte outra hora pra conhecê-los).
É isso, espero que vocês curtam. Prometo que em breve volto a postar com mais frequência. Aliás, queria ter tempo pra finalmente terminar o texto sobre o Adaptação (dirigido pelo Spike Jonze e roteirizado pelo genial Charlie Kaufman), texto que eu comecei a escrever ainda no ano passado, após ter reassistido ao filme pela 4º vez e ter percebido que ele ainda preserva a mesma espontaneidade da primeira vez que o conheci. E assim que possível quero rever Synecdoche, NY (que foi não apenas roteirizado, mas também dirigido pelo Kaufman) pra então usar este espaço para gritar o mais alto que eu puder que Synecdoche é, sem sombra de dúvidas, um das 10 obras mais importantes e geniais do cinema nos últimos 30 anos. Até lá, fico aqui, no outro extremo, me entretendo com as coisas que tenho escrito e que logo se transformarão em peças e cenas que vocês poderão conhecer por aí. Só espero que não mais publicados apenas neste blog.
ABERTURA PRÊMIO AÇORIANOS 2010
ATOR 1: Bem-vindos amais uma cerimônia de entrega dos prêmios Açorianos de Teatro e Dança e Tibicuera de Teatro Infantil.
(…)
ATOR 2:Todo final de ano acontece sempre a mesma coisa: um monte de listas de melhores do ano: o melhor livro do ano, o melhor filme do ano, o melhor disco do ano…
ATOR 4: …a melhor lista de Melhores do Ano.
ATOR 3: E como de hábito, é a época onde os artistas da classe teatral de Porto Alegre ficam conhecendo os indicados aos prêmios Açorianos e Tibicuera.
ATOR 1: E enquanto alguns iniciam a comemoração…
ATOR 4: …outros começam a choradeira porque não foram indicados.
ATOR 2: Mas como todos sabemos, qualquer lista sempre acaba deixando alguém de fora… eu, por exemplo. Eu não fui indicado este ano! Um absurdo, eu sei…
ATOR 3: Ok. Ok… Voltando ao prêmio, este ano nós temos uma série de indicações históricas: pela primeira vez um espetáculo de rua concorre ao troféu de Melhor Espetáculo.
ATOR 4: E também pela primeira vez um espetáculo sem cenário concorre na categoria de… Melhor Cenografia.
ATOR 2: Outro destaque em 2009 foi O Sobrado, que conseguiu o feito de indicar, por um único espetáculo, todos os 150 alunos do Departamento de Arte Dramática da UFRGS…
(pausa)
TODOS: Todos.
ATOR 3: A peça, adaptada da obra de Érico Veríssimo e dirigida por Inês Marocco, é a campeã de indicações, concorrendo em 11 categorias.
ATOR 4: E dizem as más línguas que se o espetáculo conseguir levar todos os prêmios a que concorre…
TODOS – Todos.
ATOR 3: …a comissão será obrigada a mudar a estatueta pra uma miniatura do Laçador.
Olham para o público.
ATOR 1: E neste ano a cerimônia NÃO será transmitida ao vivo pela TVCom. Ao que parece os telespectadores vão finalmente conseguir assistir ao Grenal em paz!
(Pausa)
ATOR 1: E nesta edição, temos também diversos artistas que concorrem pela primeira vez ao prêmio…
ATOR 4: E temos a Sandra Dani.
(Pausa)
ATOR 1: É consenso entre a classe teatral que Sandra Dani é a nossa Meryl Streep. Uma comparação justíssima.
ATOR 2: Mas o problema em afirmar isso é que sempre tem alguém que pergunta: “então se a Sandra Dani é a nossa Meryl Streep, quem afinal é a Sandra Bullock do teatro gaúcho?”.
TODOS – Hmmm!
ATOR 2: Bom, eu mesmo poderia citar umas três atrizes, mas prefiro manter a elegância.
ATOR 3: Outros fatos que marcaram o ano no teatro gaúcho: depois de dramatizar no palco o conflito Grêmio versus inter, Maragatos versus Chimangos, este ano os diretores gaúchos irão prosseguir com a pesquisa dessas batalhas polarizadoras e irão dramatizar o conflito entre teatro de edital…
ATOR 2: …e teatro de edital do Goethe.
ATOR 4: Obviamente a peça só poderá ser montada se passar em algum edital que pague mais de oito mil reais!
ATOR 1: E entre os indicados temos também a nossa queridíssima Arlete Cunha.
ATOR 2: Uma grande atriz, vencedora duas vezes por seus trabalhos em “Fim de Partida” e “Hilda Hilst in Claustro”, e que neste ano concorre pela primeira vez na categoria Melhor Direção.
ATOR 3: Por sorte a Sandra Dani não concorre nesta categoria.
ATOR 4: Mas independente de quem sairá vencedor esta noite, o mais importante é que nós, artistas de teatro e dança do Rio Grande do Sul, celebramos mais um ano com produções de qualidade; produções que apresentam diversidade de linguagens.
ATOR 1: E se no ideograma japonês Teatro significa Possibilidade, podemos dizer que o palco – mais do que o teatro – é a manifestação suprema dessas possibilidades. O palco é o território onde todos temos livre passagem e que nos permite sermos tantos quanto quisermos ser, experimentar o quanto quisermos experimentar, sentir o quanto pudermos sentir. Nele a vida se expande, pois temos a liberdade de existir num gesto, numa dança, numa música, num olhar. Existir, simplesmente.
ATOR 2: Mas o palco pode ser uma praça, pode ser um ônibus, pode ser uma galeria, uma rua movimentada ou mesmo uma rua deserta. O palco pode ser em qualquer parte, porque o mais importante não é o lugar, e sim o desejo de ocupá-lo. E quando adentramos este espaço nós nos tornamos como janelas que mostram as paisagem que trazemos dentro da gente. Deixamos de ser simples espelhos para nos tornarmos aberturas pra tudo o que experenciamos no mundo e que depois derramamos aqui dentro. E é então que as identidades podem ser reconhecidas. Tanto as nossas, quanto as daquelas pessoas que circulam lá fora, mas que irremediavelmente vivem dentro de nós.
ATOR: E para entregar os troféus de Melhor Atores e Atrizes coadjuvantes, chamamos ao palco os irmãos gêmeos Drômio e Drômio, personagens coadjuvantes da primeira peça de William Shakespeare, A Comédia dos Erros.
DRÔMIO: (para o irmão) Quer saber? Eu não suporto a mania que essa gente tem de sempre nos chamar de “coadjuvantes”. Não tem cabimento! Nós é que somos os verdadeiros protagonistas da peça!Somos ou não somos?
DRÔMIO: Acho que tu tá exagerando um pouco, Drômio…
DRÔMIO: Exagerando?! A gente aparece em cena tanto quanto os outros – se não até mais! –, mas eles insistem em nos chamar de coadjuvantes. É por isso que eu sempre digo que a história da dramaturgia é a história da falta de limites da mentira humana.
DRÔMIO: Drômio, me desculpa, mas faz mais de 400 anos que eu convivo contigo nessa peça e nunca te ouvi falando isso.
DRÔMIO: É claro que não ouviu! Mas eu falei! Aliás, falei tudo o que pensava a respeito de dramaturgia, mas daí veio aquele tal senhor de cavanhaque – aquele que todo mundo enche a bola chamando de Bardo, Imortal, Cânone Ocidental, Gênio da Raça, esse monte de baboseira –; pois esse senhor foi lá e passou a pena em cima de tudo o que eu disse. Claro. Imagina se ele ia admitir que só o que ele fazia da vida era corroborar uma mentira que todos acreditam ser verdade. Mas eu te digo uma coisa, Drômio: se aquele sujeitinho arrogante não tivesse cortado a maioria das minhas falas, hoje eu certamente seria o protagonista desta peça. Estaria no mesmo patamar que o Hamlet, o Ricardo III, Macbeth, Henrique V, esses complexados cujos nomes são título das peças. Imagina só, ver escrito na fachada do teatro: Drômio – O Musical. É claro que na minha versão só teria lugar pra um Drômio… foi mal aí.
DRÔMIO: Mas tu tá esquecendo que existem personagens coadjuvantes que são mais famosos que os próprios protagonistas.
DRÔMIO: Quem? Me diz um que seja.
DRÔMIO: Bom, o Falstaff, por exemplo…
DRÔMIO: Esse não vale! Cita um de outro autor.
DRÔMIO: Bom… então o Coringa!
DRÔMIO: Não. Eles podem até ser famosos, mas não tem tantas cenas quanto os protagonistas. Ouve o que eu te digo: coadjuvante é sempre a escória. Quando um ator interpreta um personagem coadjuvante ele fica com o estigma do 2º lugar.
DRÔMIO: Que bobagem, Drômio.
DRÔMIO: Sério! Se um ator tá num almoço de família, por exemplo, e alguém pergunta “qual o teu personagem na peça?” e ele responde “sou um coadjuvante”, as pessoas na mesa imediatamente olham pro pobre diabo como se ele fosse um completo perdedor – aquelas tias todas olhando com olhar de pena. Mas com protagonista não; com protagonista é diferente. Todos respeitam um ator que faz um papel principal porque é ele que tem mais …falas.
DRÔMIO: Mas, Drômio, tu precisa entender que um protagonista não é quem fala mais, mas sim quem conduz a ação dramática de uma peça…
DRÔMIO: (repreensor) Que ação dramática, criatura?! Não fala isso na frente dessa gente, tu tá louco?
DRÔMIO: Ué, o que é que tem? Ação dramática, ação dramática, ação dramática! Falei!
DRÔMIO: Então tu ainda não sabe?
DRÔMIO: Sabe o quê?
DRÔMIO: Que é um crime falar em “dramático” no teatro contemporâneo? Não acredito que tu ainda não leu o Teatro Pós-Dramático!
DRÔMIO: Ai, não. Eu bem que tentei, mas é que TÃO chato. Acabei trocando o livro por um daquele autor… não lembro o nome… o Irlandes que se mudou pra Paris…
DRÔMIO: (com desdém) Ah… o tal do Beckett.
DRÔMIO: (ri) Esse mesmo! Que figura!
DRÔMIO: (desdenhoso) Esses dramaturgos, vou te contar… Têm cada um… e qual era a peça?
DRÔMIO: Era aquela história do Pozzo e do Lucky.
DRÔMIO: Tu tá querendo dizer do Vladirmir e do Estragon, né?
DRÔMIO: Não, do Pozzo e do Lucky mesmo. O Vladirmir e o Estragon são só coadjuvantes.
DRÔMIO: Drômio, Drômio, não me tira do sério, Drômio…
DRÔMIO: Mas é! O que eu posso fazer se eles não conduzem a ação dramática?
DRÔMIO: Mas que dramática, seu imbecil?! E que tipo de ação tu quer encontrar naquela peça???
DRÔMIO: Mas é claro que tem! Alguma pelo menos tem.
DRÔMIO: (aos berros) Pelamordedeus, Drômio, chega de falar dessa bobagem!
DRÔMIO: Tá, desculpa. (pausa) Por falar nisso, eu encontrei o Vladmir e o Stragon dia desses.
DRÔMIO: E aí, como é que eles estão?
DRÔMIO: Na mesma. Lá, no deserto, esperando.
DRÔMIO: Humpf… Se eles soubessem o que aquele tal Godot anda aprontando por aí tenho certeza que eles não iam ficar mais nem um segundo naquele lugar. Tem gente que nasce pra ser servo mesmo.
DRÔMIO: Sem dúvida. Bom, vamos apresentar o prêmio?
DRÔMIO: Não há o que fazer, né?
DRÔMIO: Não. Não há o que fazer. Os indicados ao Prêmio de Melhor Ator Coadju…
DRÔMIO: Ator EM PAPEL Coadjuvante.
DRÔMIO: Os indicados ao Prêmio Tibicuera de Melhor Ator Em Papel Coadjuvante no Teatro Infantil são:
DUDA: Bom, pessoal, como eu fiquei esse tempo todo tentando conseguir um papel numa peça mas ainda não rolou nada, eu resolvi escrever uma peça pra eu mesmo atuar. Passei os últimas três semanas na frente do computador, só trabalhando no texto. Então resolvi vir aqui pra ler pra vocês. No final eu quero que vocês me digam o que vocês acharam, tá? (ele puxa o calhamaço debaixo da camisa) Começa assim:
“Cerimônia de um importante prêmio de teatro. Platéia lotada. Os apresentadores estão no palco, apresentando o show. Entra o ator. Ele caminha com passos decididos em direção ao microfone central. Pára, de repente, e vira-se para a coxia. Olha naquela direção durante algum tempo, como se estivesse ouvindo alguma coisa. Ainda parado, volta-se em direção ao microfone. Caminha dois passos, quando então percebe alguma coisa no chão. Abaixa-se para observar e surpreende-se. Recolhe algo com uma das mãos e guarda num dos bolsos. Levanta-se e caminha mais dois passos. Enquanto caminha, vira-se novamente para a coxia…”
ATOR 1: Tá, moço, anda logo com isso…
DUDA: “…vira-se novamente para a coxia. Percebe alguém acenando. Acena de volta, em movimentos circulares que lembram um alienígena tentando se comunicar.”
ATOR 2: Ei, rapaz, não dá pra encurtar isso aí, não?
DUDA: (ficando gradativamente mais nervoso) “De repente um dos apresentadores o chama…”
ATOR 2: Sim! Fui eu aqui! Perguntei se não dá pra cortar esse teu texto, não?
DUDA: “…O Ator caminha até o proscênio, pára em frente ao microfone e retira de dentro de sua camisa um calhamaço todo amassado. Começa a ler…”
ATOR: Ei, garotão! Não é porque não tá sendo transmitido pela TVCom que a gente tem que ficar aqui a noite toda te ouvindo.
DUDA: “Começa a ler: ‘Bom, pessoal, como eu fiquei esse tempo todo tentando conseguir um papel numa peça, mas ainda não rolou nada, eu resolvi escrever…’”
ATOR: Corta essa merda!
DUDA: “…eu resolvi escrever uma peça pra eu…”
ATOR: Termina logo!
DUDA: “…pra eu…”
ATOR: Pula umas partes!
“DUDA: “Er, hum… Passei os últimas três semanas na frente do computador… resolvi vir aqui pra ler pra vocês… puxa o calhamaço debaixo da camisa…”
ATOR: Chega! Eu vou chamar os seguranças…
DUDA: “Começa assim… Cerimônia de um importante prêmio de teatro. Platéia lotada. Os apresentadores estão no palco, apresentando o show. Entra o ator…
ATOR: Seguranças! Tirem esse rapaz daqui!
ATOR: Corta isso, rapaz.
DUDA: “Er… Os apresentadores começam a gritar, ordenando que ele pare… A platéia começa a ficar apreensiva… Er, hum… Ele puxa o objeto que havia recolhido do chão…”
ATOR: Pelo amor do santo, chama um dramaturgo pra cortar esse texto!
DUDA: “…puxa o objeto que havia recolhido do chão… Ahhhhhh! Tá bom!!!… Entra o dramaturgo. Fim” Tá, acabou.
Teatro Renascença (Av. Erico Verissimo, 307 – Menino Deus / POA)
Entrada Franca
Concepção: Adriane Mottola, Sofia Salvatori e Diones Camargo Cenografia e Vídeos: Bruno Gularte Barreto Roteiro: Diones Camargo Figurinos: Rô Cortinhas Iluminação: Cláudia de Bem Arte Gráfica e Vídeos de Apresentação dos Indicados: Fred Messias (FR3 – design), Direção: Adriane Mottola
Performers:
Filipe Catto
Melissa Arievo
André Paz
Tatiana da Rosa
Nikki
Diones Camargo
Rodrigo Mello
Duda Cardoso
Vanise Carneiro
Transmissão pela TV-Com no Sábado, dia 03 de Abril, às 23h.
Passei pra ver a estatística de acessos neste blog e percebi que apesar de não postar nada há semanas a média de visitas se mantém. Não sei exatamente como ou porquê, mas suspeito que os parcos (e generosos) quatro ou cinco leitores fiéis andam passando só pra ver se tem alguma novidade (o que de fato há, mas não tenho andado com vontade de detalhar nestas páginas); ou então são acessos dessas pessoas que filtram coisas esquisitas no Google e que acabam caindo sem querer por aqui. Gosto de pensar que, nesse último caso, alguns desses desavisados acabam lendo ao menos um post ou assistem a pelo menos um vídeo daqueles que eu indico… mas também, se não o fazem, isso não é o mais importante nem é garantia de nada, no fim das contas. O que importa é que a gente só escreve sobre aquilo que tá realmente a fim de escrever. Se alguém ler, então ótimo.
Merda! Último cigarro no maço! Mas pelo menos ainda tem Coca-cola… mas uma hora vou sentir vontade de fumar e já tá tarde pra sair. Tô com o DVD do Bastardos Inglórios (que todo mundo recomenda) aqui pra assistir, mas não tenho tido tempo. Mas pelo menos não tá aquele marasmo sem fim que tava antes (o que também era bom, por outro lado).
Ontem fui ao cinema (naquele ciclo initulado ”Granulações do Cotidiano“, que tá rolando até o fim do mês na UFRGS), assistir ao Short Cuts, do Altman, cujo roteiro ele adaptou de vários contos do Raymond Carver, que era/é um escritor incrível. Vi também o Na Natureza Selvagem essa semana… a história daquele garoto é intrigante – e eu sei exatamente por quais motivos, mas também não quero detalhar aqui, pois cada um encontra os seus motivos próprios numa obra; só sei que na época em que fiquei sabendo do livro, eu devia ter uns 15, 16 anos, fiquei com muita vontade de ler e quase o comprei, não fosse o restrito salário de office boy que eu recebia todo mês. Hoje penso que deveria ter conseguido o tal livro de alguma maneira e ter lido ele na época… talvez isso tivesse me preparado pra algumas coisas que eu veria nos anos que se sucederam; talvez eu nunca tivesse aceitado algumas situações de um jeito tão passivo como às vezes aceitei, e talvez isso (em combinação com outras leituras) tivesse apenas aumentado a revolta que eu sentia e que por vezes ainda sinto e tivesse me ensinado cedo a não procurar legitimação pelo que eu faço exceto dentro de mim mesmo; aprender a deixar a opinião dos outros do lado de fora de casa, como um cavalo encilhado no qual podemos até montar vez que outra pra dar umas voltas lá pelas bandas do Clint, mas nunca deixar que ele entre em casa com seus cascos sujos e sente com a gente à mesa de jantar. Voltando ao filme, não gosto muito da direção do Sean Penn (que é um ator impressionante e que como diretor fez ao menos um filme memorável: A Promessa, com o Jack Nicholson).
E semana passada eu revi Magnolia, que é simplesmente um dos melhores filmes das últimas décadas. O Paul Thomas Anderson era admirador do Altman e os dois ficaram muito amigos, e o P. T. chegou até a fazer assistência de direção no último filme do cara. Além disso, dedicou o Sangue Negro em homenagem ao seu “mentor”. No Magnolia dá pra ver as inúmeras referencias evidentes ao Short Cuts, mas não resta dúvidas de que o Magnolia é melhor. A Aimeè Mann, que compôs a trilha deste último, aparece no filme dos Coen, O Grande Lebowski (outro que eu revi há poucos dias e que é genial também): ela faz uma ponta como a verdadeira garota que teve o dedo cortado pra usar na chantagem que move a trama.
Paul, em foto feita por mim, na paradisíaca praia do Quintão/RS - Carnaval 2010 - Inesquecível!
Agora há pouco tava passando a reprise do especial do Raul Seixas, na Globo (aquele com o Julinho Andrade). A TV tava ligada e eu ouvi uns trechos das entrevistas e tal. Não sabia que ele tinha morrido tão jovem… 44 anos; Mas 44 também pode ser tempo longo demais, vai saber? Vai ver ele morreu na hora certa pra ele.
2 x = A.ha.zey!!!
De qualquer forma, eu também não quero me estender. Ao menos não neste post. Quando digo que tenho andado sem vontade de escrever, não é exatamente isso. É que tenho feito tantas coisas que mal tem sobrado tempo ou paciência de vir postar algo aqui. É estranho, mas às vezes eu tô andando na rua ou bebendo com os amigos e sinto o ímpeto de escrever sobre alguma coisa que eu pensei ou senti ou lembrei… mas normalmente não o faço - ao menos não imediatamente – ; nem sequer as anoto. A gente sempre paga um preço por tanta dispersão. Nunca se sabe. Mas preciso lembrar também que só comecei a escrever nesse blog porque queria uma escrita mais ágil e despretensiosa, então tenho que me acostumar a vir aqui e falar sobre qualquer bobagem. O problema é que sou obsessivo. Reviso, acrescento ou corto coisas a toda hora. E isso toma tempo. Portanto, fazer isso no ritmo da web às vezes me cansa, pois nem sequer tem sobrado tempo pra ler os blogues que eu curto, ou os livros que tão na minha lista, e a tendência é do ritmo ir ficando cada vez mais incessante nos próximos meses. É… como diria o Dylan, “Things Have Changed“.
Bom, é isso. Se tu é um dos quatro ou cinco leitores que acompanham esse Normal People Bore Me com frequência e já leu todos os posts, desde o primeiro até esse aqui, e ainda tem alguma vontade e, principalmente, paciência de ler mais das coisas que eu escrevo, recomendo que acesse o meu outro blog (que pra falar a verdade, é mais um portfólio, mas que tem uns textos sobre teatro e cinema e tal). Mas se tu já destrinchou o outro também, então só resta mesmo ler alguma outra coisa… E como eu sou um cara legal (na maior parte do tempo), vou deixar um presentinho pra vocês, caso vocês voltem aqui e ainda não tenha nada de novo. Um link prum conto da Miranda July (aquela “multiartista” que, entre outras coisas, dirigiu oEu, Você e Todos Nós. O conto se chama Alguma Coisa que Não Precisa de Coisa Alguma, e tá na coletânea É Claro que Você Sabe do que Estamos Falando. Na minha opinião é o melhor conto do livro e um dos mais agridoces (estranha essa palavra, não?) que eu já li na vida. O engraçado é que quando comento com as pessoas que ando lendo esse livro, elas sempre dizem: “E tu já leu aquele das duas garotas??!! Nossa, o que é aquilo?!”. Portanto, se tu aí ainda não o leu, clica aqui e te prepara pra conhecer uma história comovente sobre um amor manipulador e perverso - que talvez seja mais admiração do que amor, mas que não deixa de ser tudo isso ao mesmo tempo. E essa história me lembra uma fala do Donnie Smith, que ele profere bem perto do final do Magnolia:
“DONNIE SMITH: I know I did a stupid thing. So stupid! Getting braces. I thought… I thought he would love me. Getting… braces! And for what? For something I don’t even… I don’t know where to put things, you know? I really do have love to give! I just don’t know where to put it!“
E pra quem se empolgou com o conto da Miranda e quiser ler o livro inteiro, clique aqui e siga mais um pouco com ela. Garanto que é uma ótima companhia pra certas noites nas quais tu não sabe onde colocar toda aquela imensidão de coisas que tu traz contigo.
Lembro que quando comprei o DVD, um par de anos atrás, alguém me disse: “Êia! Pelo visto tá sobrando dinheiro!“. Na hora percebi que a tal pessoa não sabia do que se tratava. Eu tava certo… aliás, não deve saber até hoje.
No post anterior eu adicionei, entre outros vídeos, um trecho do Seis Graus de Separação, do John Guare - aquela cena em que o Will Smith (Paul Poitier/ Paul Kittredge) expõe sua teoria sobre o Apanhador no Campo de Centeio. Enquanto procurava, encontrei outro excerto do mesmo filme: o monólogo final da Ouisa, personagem interpretada pela ótima Stockard Channing (mais conhecida como a garotona do Grease). O que ela diz ali revela o outro lado da história que até então ela e o marido vinham contando nos diversos círculos sociais que frenquentavam. É o clássico momento de epifania, de “transformação da personagem”, mas mesmo assim é um momento lindo. E por ser uma cena já bem perto do final, não recomendo àqueles que ainda não assistiram ao filme (tem pra baixar nesses sites na internet), pois vale muito a pena acompanhar a trama desde o início pra saber exatamente do que se trata e da natureza daquilo que ela expõe ali: esse tipo de coisa que todos nós fazemos - alguns mais que os outros, certamente - que é reduzir uma experiência importante a uma simples anedota.
Tudo bem que o humor nos distancia dos fatos e assim nos salva nos momentos mais desesperadores, mas me parece que pra algumas pessoas esse mecanismo de defesa se torna um hábito justamente porque os poupa da dor de se ver como os outros à sua volta - pessoas que sentem, se machucam e se magoam, como qualquer outro ser humano - e isso acaba desenvolvendo neles uma ilusória sensação de superioridade. Por isso é que precisamos estar atentos pra não ultrapassamos o limite do bom humor e acabarmos nos tornarndo céticos e insensíveis a tudo, pura e simplesmente. Nessa sociedade de informação rápida e fugaz, que exige que tudo seja reduzido a imagens, slogans e textos de até 140 caracteres, feitos sob encomenda para um assimilação imediata, muitas vezes nos vemos sentados numa mesa de bar narrando acontecimentos de um jeito até espirituoso, porém grosseiramente leviano, com um ponto de vista parcial sobre os fatos, apenas com o intuito de sermos vistos como melhores, mais corajosos ou mais descolados do que realmente somos. Ao fazermos isso, frequentemente acabamos vulgarizando experiências que, se contadas de uma maneira mais cuidadosa e justa, deporiam contra nós mesmos, tão somente.
Ouisa teve a coragem de confrontar esse hábito que percebera em si, e ao fazer isso revelou não apenas a hipocrisia dela, mas principalmente, a de toda aquela gente que pairava à sua volta, como abelhas em volta de uma flor, prontas para sugá-la: ouvintes interessados, porém ilesos a qualquer perigo ou dor (das ferroadas) que possam surgir quando se vive na pele uma experiência tão cheia de significados, seja ela qual for. E como bem lembra Paul em determinado momento do filme “o Kandinsky tem dois lados”, assim como qualquer acontecimento na vida. Mas essa verdade talvez não funcione tão bem numa piada.
PS: O vídeo só tem legendas em francês, portanto reproduzo abaixo o trecho principal do monólogo… em inglês.
OUISA KITTREDGE:
And we turn him into an anecdote, to dine out on, like we’re doing right now. But it was an experience. I will not turn him into an anecdote. How do we keep what happens to us? How do we fit it into life without turning it into an anecdote, with no teeth, and a punch line you’ll mouth over and over, years to come: ‘Oh, that reminds me of the time that impostor came into our lives. Oh, tell the one about that boy.’ And we become these human jukeboxes, spilling out these anecdotes. But it was an experience. How do we keep the experience?
PS:Fiquei séculos editando este post, arrumando uma coisa aqui, outra ali. Nesse meio tempo o Salinger morreu, a temperatura em Porto Alegre se tornou insuportável, enviei o primeiro projeto de 2010, terminei um longo artigo sobre dramaturgia, revisei uma peça, escrevi mais algumas coisas, li mais uns livros e assisti a mais alguns filmes. Uma estranha repetição de eventos, só que de um jeito completamente diferente. Bem-vindos de volta.
Bom, depois de quase um mês sem postar nada, resolvi atualizar este blog. Pouco depois do ano começar, lá pelo dia 02 ou 03 de Janeiro, eu havia escrito um longo texto contando como tinha sido a virada e tal… havia me proposto a escrever detalhadamente as coisas que aconteceram não apenas nos dias que precederam o Réveillon, mas também nos que o sucederam. Desisti. Primeiro porque é muito egocentrismo achar que alguém vai se interessar em ler um texto enorme contando como eu me diverti na virada, blá, blá, blá. Segundo porque eu comecei a escrever uma outra coisa, me empolguei, e não queria mais saber de reproduzir fatos cotidianos em posts. Mas cá estou eu, de volta, porque deu saudade do blog. Portanto, vou postar trechos retirados do longo texto original (e incompleto) sobre a tal viagem de ano novo e falar em poucas palavras e - algumas imagens - das coisas que aconteceram nesse primeiro mês de 2010. Acompanhe aí, se tiver paciência.
Considero alguns acontecimentos da minha existência como espécies de marcos simbólicos, os quais, quando olho pra trás, lá adiante, reconheço neles um pouco “daqueles” que um dia eu fui: os portos, as peles, as máscaras que eu deixei pra trás no trajeto. Mas talvez porque às vezes os acontecimentos são absolutamente irrelevantes - ou talvez porque eu não goste de ficar olhando pra trás por muito tempo, apenas o suficiente pra evaporar de vez a paisagem que vai ficando cada vez mais imprecisa na linha do horizonte - é que decidi aproveitar a força metafórica de renovação presentes nas cerimônias de final de ano pra encerrar 2009 com uma série de marcos simbólicos conscientes e assim, de alguma forma, ter algumas anotações sobre o que esse último ano significou pra mim, pro caso de precisar recorrer a isso no futuro.
E quer saber? Eu acredito nessa coisa meio besta de virada de ano - isso de balanço e desejo de mudança. Acredito mesmo! Muitas vezes eu ouvi gente dizendo que as pessoas não mudam… aquele lance da Rã e o Escorpião, sabe? Nisso, por exemplo, eu não acredito. E é uma afirmação que me irrita um pouco quando ouço porque pressupõe que as pessoas que a proferem sabem tudo sobre o ser humano e então podem dizer com propriedade: “as pessoas não mudam!”. Mas se eu mesmo já mudei tantas vezes, por que os outros não podem mudar?! (e não tô falando de coisas factuais, como emprego, finanças, essas coisas… tô falando de mudança de percepção de si mesmo e da vida à sua volta). Sim, eu sei também que nem todo mundo vai tão fundo nas coisas; que muitos dizem que querem mudar mas no fim não trocam nem uma virgula nos dez mandamentos impressos nos seus genes e nas suas cabeças forjadas em série - muitas vezes por incapacidade de auto-percepção, noutras por uma questão de caráter mesmo, sei lá. Só o que sei é que comecei (ou melhor, continuei) a minha “tentativa” de mudança: fui passar o Natal na casa da minha família e acabei ficando lá por alguns dias – mais do que eu inicialmente havia previsto – o suficiente pra cuidar de coisas que antes eu talvez não desse tanta atenção. Brinquei com o meu sobrinho, li histórias e conversei muito com ele; li pra mim mesmo quando e o quanto eu quis ler; escrevi um pouco, mas bem pouco, que era pra não me chatear com algo que eu gosto tanto. Conversei com minha mãe e tentei injetar um pouco de ânimo naquela alma há muito desgastada por uma certa inaptidão para com o sentido prático da vida - inaptidão que eu herdei e que venho tentando modificar com o tempo. Enfim, quando saí de lá, senti que deixei alguma coisa muito antiga pra trás, uma espécie de símbolo desses bem incrustados na gente, e, felizmente, estava consciente disso. Um Eu despedia-se de todos os outros “Eus” que ainda existem por aqui. A partir dali a jornada seguiria apenas com esses que me restaram.
(…)
Daí encontrei o Francis no cinema. Havíamos combinado que, para encerrarmos um ano como 2009, só mesmo com uma destruição igualmente grandiosa: a destruição simbólica de todas as coisas que existiam até então, com o intuito de limpar o caminho para o que virá a seguir. Foi com esse pensamento filosófico e esse sentimento de renovação - além de pipoca e refrigerante - que adentramos a sessão do filme 2012. Foi MUITO divertido! Humor involuntário e vergonha alheia, sabe? Combinação explosiva! (não vou entrar nos méritos artísticos do filme pois estes simplesmente não existem – e não me venham com aquele papinho de mercado cultural, de indústria cinematográfica e tal, ok? Moro numa cidade fantasma, não numa L.A. cheia de palmeiras e mansões). Durante o filme só senti falta de duas coisas: uma garrafa de Johnny Walker Red e um óculos 3D. De resto, era aguentar até tudo ser destruído e o troço que tava ficando cada vez mais chato finalmente acabar. Eu nunca como pipoca no cinema, mas esse filme mereceu… pra falar a verdade merecia bem mais: uns tomates, por exemplo.
Saí da sessão com a certeza de que o ano estava, enfim, terminando – sim, porque o fato de ser 29 de Dezembro ainda não havia me convencido totalmente: muita coisa pode acontecer em 48h e disso eu já tô (ficando) careca de tanto saber. Por isso passei a madrugada no Van Gogh, bebendo e jogando conversa fora com o Francis e com o Rodri Scalari; cheguei em casa de manhã, bêbado, coloquei minhas roupas e coisas dentro de uma mochila, selecionei alguns livros, caderno de anotações, etc., e me atirei na cama. Fechei os olhos e imediatamente fui acordado pelo despertador. Mais uma vez. E mais outra. Até que olhei de novo: “Merda! Uma hora atrasado!”. Isso, infelizmente, me lembrou o início do tal filme…
(…)
No carro, música a todo volume, um mapa do RS, SC e PN nas mãos, janelas abertas pra deixar entrar o vento que soprava lá de um 2010 já bem próximo, e um óculos emprestado pra poder encarar o sol de frente, como convém pra um jovem que está envelhecendo cada vez mais rápido com a ajuda dos Raios UVB e alguns acompanhamentos nocivos. Muita conversa sobre muita coisa, mas ainda nenhum plano sobre pra onde iríamos passar a virada.
“Subimos ou descemos?” - perguntou o meu amigo que tava na direção.
“Subimos”, respondi.
Não tínhamos idéia pra onde estávamos indo, mas ao menos estávamos subindo. No trajeto, chuva. Encontramos uma pousada que ficava bem ao lado de um rio. Ficamos com o quarto 13 porque o 14 tava com um barulhão no ventilador de teto, que parecia que ia despencar de lá a qualquer momento. Passar a última madrugada de 2009 num quarto de nº 13 pode parecer um erro fatal, não? Tudo bem. Em 2009 parece que tudo funcionou ao contrário mesmo, então essa coincidência talvez até trouxesse sorte nesse encerramento de ciclo. Deixamos as coisas na pousada e, após o banho, saímos pra conhecer o “centrinho”. Sério: ou as pessoas fugiram da sua própria cidade ou a vida social é algo ainda impensado naquele lugar! Meia noite e tivemos de sair do único bar em funcionamento na cidade, pois eles estavam fechando a birosca. Comovidos com a nossa insistência, nos concederam uma dica: se quiséssemos continuar bebendo, teríamos que ir até um posto que ficava na entrada da cidade vizinha. Um lance Twin Peaks, sabe? E lá fomos nós, beber num posto no meio do nada! Acabamos ficamos lá até tarde, confrontando Lou Reed e The Verve com os carros ao lado, que atacavam com músicas sertanejas e sucessos do axé. Tava foda a disputa, mas pelo menos dava pra continuar bebendo e conversando. Fomos embora bêbados e nem lembro direito por qual trajeto nós voltamos. Só lembro que a gente chegou no quarto e resolvemos ir direto pra piscina da pousada, que só era liberada até às 21h. Quem liga pro tempo quando falta menos de 24 horas pro ano mudar? E quem liga se isso ia parecer aqueles seriados adolescentes com um monte de gente bêbadas e sorridentes? O negócio era experimentar pra saber se na TV eles são sempre tão sorridentes porque são felizes ou simplesmente porque estão bêbados. Tendo isso em mente, peguei mais uma lata do frigobar e pulei na piscina. Caralho! Eu ainda sabia nadar! Bêbado e com a braçada meio estranha, mas ainda sabia! “Ótimo!!! Vou precisar dessa habilidade no futuro”, foi a minha única anotação mental.
De manhã, ressaqueira. Encontro o meu amigo já na mesa de café da manhã da pousada, lendo um livro do Umberto Eco. Eu chego rindo: era contrastante aquele intelectual de óculos escuros com aquele que eu vira há poucas horas fazendo pega na auto-estrada… maldito arruaceiro! De qualquer forma, eu cheguei rindo na mesa, nem lembro porque. Mas e daí mesmo? Retomando: café da manhã, recolher coisas no quarto, deixar pousada, pegar a estrada, revisar mapa, “subir ou descer?” Subir, sempre. Ah, sim! Chegada em Cambará do Sul, a “capital do mel”, pra visitar os cânions. Calma, isso merece uma pausa.
“Bom mesmo é o livro que quando a gente acaba de ler fica querendo ser um grande amigo do autor, para se poder telefonar para ele toda vez que der vontade. Mas isso é raro de acontecer“
(Página 23)
Um dos melhores e mais divertidos livros que eu li em 2009 foi sem dúvida O Apanhador no Campo de Centeio (The Catcher in the Rye), do J. D. Salinger. Apesar de ter lido já muito tardiamente – parece uma unanimidade entre os seus admiradores que esta é uma obra para ser lida na adolescência –, fui imediatamente puxado pra dentro do universo contraditório e desencantado de Holden Caulfield. Muita gente com quem eu conversei (ou mesmo parte dos comentários que eu achei na internet) se referem ao livro como uma simples “história de adolescente”. Alguns acham o protagonista/narrador um porre e aquilo o que ele conta uma chatice sem fim. Questão de opinião. Eu faço coro com aqueles milhões de leitores que encontraram nas suas páginas pequenos momentos de sarcasmo, imaginação e doses de beleza singela, misturados à uma certa melancolia e rebeldia (às vezes totalmente descabida, sim, mas coerente com o comportamento de qualquer adolescente).
E eu mesmo admito que o Holden traz nele alguns traços psicológicos que eu detesto quando os percebo nas pessoas à minha volta (hesitação, imobilidade, comportamento mimado e volúvel), mas ainda assim ele é um personagem complexíssimo exatamente por trazer em si tantas contradições e por ser alguém tão sensível frente à violência que se esparrama à sua frente. O mundo, para ele, é um espaço que não deixa lugar para descanso: não há quartos de irmã, nem casas de professores, nem bancos de estações que o permitam relaxar e dormir profundamente. Tudo à sua volta é corruptível – se é que já não foi corrompido faz tempo. É uma afirmação pessimista, eu sei, mas pra um jovem como ele, cujo sonho maior é “agarrar todo mundo que vai cair no abismo” – alguém que teve perdas irreparáveis no trajeto e que não sabe muito bem como lidar com elas – essa repetição de acontecimentos passados que lhe voltam à memória ou à vida materializados em pessoas e fatos semelhantes lhe dá uma sensação angustiante de já ter visto tudo o que tinha pra se ver num curto espaço de existência. Uma espécie de velhice precoce (não é a toa que ele, com apenas 16, 17 anos, já tem uma parte dos cabelos grisalhos, que vez que outra é recoberto com o seu clássico “chapéu de caçar gente”). Para ele (assim como para muitos de nós) a vida falha por não conseguir ser como um museu, onde tudo permaneceria sempre exatamente igual. Em vez disso, é um lugar que, mesmo já tendo abrigado épocas felizes, hoje está tomado de “Foda-se!” pra qualquer canto em que se olhe. Talvez por isso – por essa repetição de eventos, esse “eterno retorno” que torna tudo pior do que um dia foi – é que Holden crê que já viu tudo e que nada ficará tão melhor assim. Isso talvez explique tanto pessimismo, o comportamento indisciplinado e a sua vontade em acabar com tudo. E é exatamente por não saber como lidar com tantas sensações que se arremessam à sua sensibilidade latente como a de uma criança, que ele resolve se tornar logo um adulto fazendo (ou tentando fazer) coisas de adultos, na tentativa de encarar a vida de frente e rir dela – mesmo que seja com o rosto cheio de sangue e com a boca cortada por dentro. No fim, os ferimentos da alma (muito mais profundos) o levam a uma exaustão paralisadora deixando-o no meio do caminho entre a criança que ele é e o adulto que ele deseja ser, o que nada mais é do que a experiência mesmo da adolescência. E é nesse momento que Holden, assim como a história que ele conta, voltam para o início. Um eterno retorno, que apesar de torturante, “mal acaba de contar, a gente começa a sentir saudades de todo mundo“. E nós, leitores, mais ainda.
Das lembranças que ficaram comigo, tem aquela da luva de beisebol do Allie (e todas as partes em que ele fala do Allie, todas sempre tão lindas); aquela quando o Holden conhece as duas freiras que estão tomando café e comendo apenas torradas e uma delas conversa com ele sobre Romeu e Julieta, e ele fala do Mercuccio e de como acha uma merda que alguém tão legal tivesse se fodido por culpa dos outros; ou quando o professor Antolini fala pro Caulfield sobre como ele deveria se concentrar nas coisas que são realmente importantes e que ele devia se esforçar pra conhecer as reais dimensões da sua mente; ou ainda quando o Holden sai de um bar bêbado e vai sozinho pro lago do Central Park com o que sobrou do disco que ele comprou pra Phoebe, e por aí vai. Só lendo o livro inteiro pra entender o fascínio que ele causa. Mas praqueles que nunca vão ler, indico aqui dois dos capítulos bem curtinhos e divertidíssimos:
o capítulo 8, quando o Holden encontra a mãe de um dos colegas dele do Pencey e mente pra ela um montão de coisas, principalmente sobre o filho dela - que segundo ele é um cretino – e que contém esse aparte inspirado:
“Nesse exato instante o condutor apareceu para conferir a passagem dela e me deu uma chance de parar com a embromação. Mas até que eu estava satisfeito de ter dito aquelas besteiras. Um sujeito assim como o Morrow, que está sempre batendo com a toalha na bunda dos outros – pra machucar mesmo – não é safado só quando é garoto. É safado a vida toda. Mas aposto que, depois de toda aquela baboseira que eu falei, a mãe dele vai pensar sempre nele como o sujeito tímido e modesto pra burro, que não deixou a gente elegê-lo chefe da turma. Certamente vai pensar, não se sabe nunca. As mães não são lá muito espertas nesse tipo de coisa.“
(Página 61)
E o capítulo 10, onde o Caulfield conhece três garotas num night club e fica contando pra gente como elas são jecas e tal, e fica mentindo pra elas que viu um astro de Hollywood entrar no salão e depois desaparecer rapidinho, só pra ver a cara de desespero das três-idiotas-caçadoras-de-celebridades.
E pra encerrar, vou colocar aqui os três últimos trechos (porque se tivesse que reproduzir aqui todos os trechos e frases que eu sublinhei, esse ia virar um post interminável). São comentários irônicos e perspicazes, como quase todos os que o protagonista nos lança. Aí vão:
1 – “O que me impressionou é que, bem ao meu lado, tinha uma dona que chorou durante a droga do filme todo. Quanto mais cretinice aparecia, mais ela chorava. A gente podia pensar que ela estava chorando porque era bondosa pra cachorro, mas eu estava perto dela e sei que não era. Tinha um menininho com ela, chateado pra burro e com vontade de ir ao banheiro, mas ela não o levou de maneira nenhuma. Ficou o tempo todo dizendo pra ele ficar sentado quieto e se comportar. Era tão bondosa quanto uma porcaria de um lobo. De cada dez pessoas que choram de se acabar com alguma cretinice no cinema, nove são, no fundo, uns bons sacanas. Fora de brincadeira.”
(Página 137)
2 – “(…) De certo modo, também era meio deprimente. Porque a gente ficava pensando no que ia acontecer com todas elas. Quer dizer, depois que terminassem o ginásio e a faculdade. A maioria ia provavelmente casar com uns bobalhões. Esses sujeitos que vivem dizendo quantos quilômetros fazem com um litro de gasolina. Sujeitos que ficam doentes de raiva, igualzinho a umas crianças, se perdem no golfe ou até mesmo num jogo besta como pingue-pongue. Sujeitos que são um bocado perversos. Sujeitos que nunca na vida abriram um livro. Sujeitos chatos pra burro. Mas é preciso ter cuidado com isso, com essa mania de chamar certos caras de chatos. (…) Mas morei com ele uns dois meses, apesar de toda a chatura, só porque ele assoviava bem pra burro. Por isso, tenho as minhas dúvidas quanto aos chatos. Talvez a gente não deva sentir tanta pena de ver uma garota legal se casar com um deles. A maioria não faz mal a ninguém e talvez, sem que a gente saiba, sejam todos uns assoviadores fabulosos ou coisa parecida. Nunca se sabe…”
(Páginas 122 e 123)
3 – “Esse é que é problema todo. Não se pode achar nunca um lugar quieto e gostoso, porque não existe nenhum. A gente pode pensar que existe, mas quando chega lá e está completamente distraído, alguém entra escondido e escreve ‘Foda-se’ bem na cara da gente. É só experimentar. Acho mesmo que, se um dia eu morrer e me enfiarem num cemitério, com uma lápide e tudo, vai ter a inscrição ‘Holden Caulfield’, mais o ano em que eu nasci e o ano em que morri e, logo abaixo, alguém vai escrever ‘Foda-se’. Tenho certeza absoluta.“
(Página 197)
PS: Assim que terminei a leitura do “Apanhador” fiquei me perguntando por que diabos ninguém nunca havia me recomendado este livro? Por que, lá pelos meus 16, 17 anos, as raras pessoas que poderiam me indicar coisas nunca haviam me dito: “lê isso, é importante”. Ou mesmo depois, quando eu já estava numa ambiente cultural muito mais inspirador, por que ninguém me deu esse livro de presente, ao invés de coisas como Proust ou Thomas Mann, que apesar de essenciais, eu nunca consegui ler? De qualquer maneira, ganhei esse livro de um amigo agora, já com 30 anos de idade e por sorte ainda conservo alguma coisa dos meus 20 e poucos… Portanto, recomendo àqueles que não conhecem este clássico contemporâneo que o leiam o quanto antes. E apesar de eu mesmo ser a prova de que não é de forma alguma um livro pra ser lido até uma idade limite, sempre corremos o risco de vermos nossa imaginação e nossa sensibilidade envelhecerem mais depressa do que imaginamos. E como isso ocorre por motivos diversos e incompreensíveis, pode acontecer a qualquer momento, basta estar distraído o suficiente. Eu mesmo já vi casos assim! E se isso acontecer, meus caros, fodeu: não há chapéu vermelho, nem carrossel girando debaixo de chuva, nem “poça d’água com um arco-íris de gasolina dentro dela” que possam tirá-los do entorpecimento que isso causa.
Abaixo, um vídeo com um trecho do ótimo Seis Graus de Separação (Six Degrees of Separation), adaptado de uma peça homônima, escrita pelo próprio John Guare, roteirista e diretor deste filme, onde o impostor Will Smith conta pros ricaços de Manhattan porque O Apanhador no Campo de Centeio é imprescindível. Assim como a imaginação.
Wake Up, do Arcade Fire (do primeiro disco deles, Funeral, e também a mesma que tá no trailer do Onde Vivem os Monstros). Pra quem ainda não conhece, aproveita e assiste eles tocando com o Bowie. Sim, é meu aniversário!
Foi também um mês de assistir a muitos filmes. Entre eles um documentário impressionante chamado Enron - Os Mais Espertos da Sala, sobre o escândalo financeiro que abalou a estrutura econômica dos EUA no início da década. Finalmente consegui entender o que levou aquela grande corporação à falência e porque o evento foi tão traumático para o povo americano. Ironicamente, o lance me lembrou muito o meu último namoro. Talvez por essa coisa de alto investimento em ações supervalorizadas ou que nem sequer existiam, desvio de fundos para empresas paralelas, etc. Enfim, esse tipo de trasheira.
Revi muita coisa também: uma delas foi o Z, do Costa Gavras, que eu já nem sequer lembrava direito como era, só que tinha gostando muito na época em que assisti pela primeira vez. E outra vez constatei que é ótimo! Cinema em estado de perplexidade plus senso apurado de narrativa!
“Paralelamente os militares proibiram:
Cabelos compridos, mini-saia, Sófocles, Tolstoi, Eurípedes, greves, Aristófanes, Ionesco, Sartre, Albee, Pinter, liberdade de imprensa, sociologia, Beckett, Dostoievsky, a música moderna, a música popular, a matemática moderna e a letra Z, que significa, em grego antigo, ‘Ele está vivo‘.”
Outro que eu andei revendo foi O Último Imperador, do Bernardo Bertolucci. Apesar do roteiro bem arquitetado, da produção impecável e do reconhecido talento do diretor, o filme tá longe de figurar entre os melhores da carreira dele. Mas, apesar disso, tem cenas/sequências já clássicas. E uma das mais inesquecíveis do filme é protagonizada pela Joan Chen – a chinesinha do Twin Peaks (aquela que fica com a alma presa num móvel depois que morre, lembra?). É um trecho de quando personagem dela se percebe presa numa espécie de salão de espelhos, onde só as imagens fazem algum sentido. Incomodada, constata tristemente que todos ali querem ficar naquele mundo por mais dez mil anos, se tiverem tempo e poder o suficiente pra isso.
E um que dispensa apresentações:
Charlotte: I’m stuck. Does it get easier?
Bob: No. Yes. It gets easier.
Charlotte: Oh yeah? Look at you.
Bob: Thanks… The more you know who you are, and what you want, the less you let things upset you.
Daqueles raros filmes que eu revisito de tempos em tempos e que sempre preserva o mesmo frescor da primeira vez.
E por útimo, fui ao cinema assistir ao Amor Sem Escalas, do Jason Reitman, no dia mesmo em que estreou. Interessante… Pena que o George Clooney é o protagonista e pena que a coadjuvante teen seja TÃO ruizinha e irritante. Mas o roteiro é muito bom e a direção (ainda que imperfeita) ajuda bastante. É um retrato do “homem líquido”, o indivíduo contemporâneo que o Bauman dissecou em seus livros. Só que desta vez flagrado num momento de repé existêncial. Tem coisas que só acontecem em filmes.
Após uma longa pausa, cá estou eu de volta com aqueles poeminhas embriagados. Vou tentar postar todos do caderno antes de 2009 terminar, conforme havia prometido (clique aqui). Se eu não conseguir, não fiquem irritados comigo, ok? Lembrem-se apenas que sou procrastinador como qualquer um de vocês aí. Agora, se por acaso esse pensamento não os agradar, aproveitem e iniciem uma mudança radical em 2010, buscando ser o melhor possível! Da minha parte, posso garantir que é o que eu venho tentando esse tempo todo… mas sempre acabo deixando pra depois.
PS da Crítica Especializada: Atenção ao tom Plathiano à la Sexy Hot dos três últimos versos do poema.
No domingo último, 20 de Dezembro, a nossa heroína (sem trocadilhos infames, ok?!), Amy Winehouse, resolveu fazer um programa light e foi a um teatrinho, em Londres, assistir a uma montagem de Cinderella. Coisa querida, não? Fosse ela outra pessoa, teria sido a notícia perfeita pr’um post de véspera de natal, com direito a jingle e tudo mais. Porém, sempre fiel à si mesma, Amy nos presenteou com mais uma de suas divertidas “intervenções” e virou a notícia perfeita pra este blog - além de se lançar numa nova, digamos, carreira: a de crítica de teatro!
Quer saber detalhes sobre o barraco? Clique aqui para ler a notícia na integra.
Não se preocupe, Amy. Algumas peças por aí merecem mesmo esse tipo de reação apaixonada; esse senso crítico tão expandido que ultrapassa a razão e acaba chegando ao corpo… dos outros, evidentemente, e em forma de uns bons sopapos!
Agora imaginem se a moda pega por aqui: o que vai ter de espectador xingando os atores, cuspindo no diretor e destruindo o cenário todo… ah, como é bom imaginar…
…ontem, durante a festa de fim de ano da Cia Espaço EM BRANCO, no momento em que entregávamos os presentes em mais um exemplar do tradicionalíssimo “amigo-secreto-nosso-de-cada-fim-de-ano”, a Sissi - ao descrever o seu amigo sorteado - veio com essa: “ele se parece com o gato Felix!”
"Desculpe, mas você de ter me confundido com outro personagem."
Eu???!!!
Bom, eu sempre curti o “Felix, the cat”, desde criança!!! Ele e aqueles olhos enormes e faíscantes, aquela maleta de onde ele tira todo aquele monte de coisas absurdas e maravilhosas…
É, acho que pode ter um pouco a ver comigo, sim… maletas metafóricas, humor ”felino”…
”- Mas a gente nunca sabe, não é mesmo?
- Nunca sabe o quê?
- A gente nunca sabe quando vai deixar de ser gato pra se tornar rato. É um limiar muito tênue às vezes…
- É, às vezes é…
- E basta um empurrãozinho das pessoas erradas pra gente voar penhasco abaixo – e elas sempre empurram! -; Um empurrãozinho e a gente deixa de ser aquele sujeito esperto pra se tornar apenas um serzinho assustado, e se vê obrigado a viver assim por um bom tempo ainda, até que finalmente espatifamos o crânio lá embaixo e tudo acaba – o que, pensando bem, não é de todo mau, porque de qualquer maneira viver com medo é a pior coisa que pode existir. Era isso o que o Roy sempre nos dizia, lembra? E quer saber? Eu acho que ele tava certo.
- Espera! O que tu vai fazer?
- Vou dar um jeito de me tornar um pastor alemão… e daqueles com os dentes BEM afiados.“
(trecho de um dos meus escritos recentes, ainda sem título)
Aqueles que assistiram ao impecável Abraços Partidos (Abraços Rotos, 2009), a mais recente obra-prima do diretor espanhol Pedro Almodóvar, sabem em que momento a frase acima aparece no filme e qual sua importância metafórica para o enredo. Portanto, para que possamos seguir esse sábio conselho do protagonista, ”posto” abaixo dois vídeos que se relacionam: “Chicas y Maletas” e “La Concejala Antropófaga“
O primeiro é originalmente um excerto do longa e trata-se do filme que o diretor Mateo Blanco/Harry Caine está filmando/filmou na sua epopéia dentro da trama de Abraços Partidos. Já La Concejala Antropófaga é um curta-metragem engraçadíssimo pseudo-dirgido por Blanco e pseudo-roteirizado por Caine, que “complementa” o vídeo anterior e possibilita assim o “fechamento” do filme dentro do filme. Enfim, um quebra-cabeças que somente um diretor/roteirista com o talento de Almodóvar poderia criar.
recebi este e-mail contendo informações sobre o estado de saúde do dramaturgo Mário Bortolotto. Acho importante reproduzí-lo aqui, pra quem tiver interesse em colaborar.
AMIGOS
Nosso amigo MÁRIO BORTOLOTTO já respira sem a ajuda de aparelhos desde a tarde de ontem (quarta-feira), está consciente e sem sedação, mas continua na UTI.
Em São Paulo, artistas de todas as áreas já estão organizando shows e encontros para angariar fundos para os gastos hospitalares e tratamento de recuperação do dramaturgo. Quem puder contribuir, abaixo os dados bancários da família:
Cristiane do Carmo Viana
Banco Unibanco – agência 0935
conta poupança 127721-6
Cristiane (ex-esposa de Mário) e Isabela (filha) são as responsáveis por ele hoje, e as únicas que podem entrar na UTI.
Qualquer quantia é bem-vinda. Colaborem!
Abaixo, uma excelente matéria de Beth Néspoli, do Estadão, sobre a falsa associação Bortolotto e violência:
Depois da ressaca, um dos melhores inícios de semana que já tive esse ano*.
Segunda: Música a madrugada toda. Acordo daquilo que na verdade não passou de um cochilo e saio pra um almoço com amigos; eu caindo de sono, mas adorando a conversa com todos. Cochilo de novo e à tardinha saio pra encontrar com a Kiddo. Matamos a saudade e falamos da vida, das escolhas e também dos problemas. E como é de costume sempre que falo com minha “irmazinha emprestada”, nos focamos principalmente nas soluções. Volto pra casa e durmo como um dinossauro.
Terça: Bruno e eu bebendo espumantes (que sobraram da vernissage dele) às duas da tarde e ficando bêbados às duas e meia (é… aquela minha “promessa” de ficar longe de bebidas alcoolicas não durou nem 48h!). Depois, encontro inesperado com a Lucy Estarrecida: mais espumante! Filme do Contreras e do Harris (Um Animal Menor, 2009) - muito bom! - e a seguir sessão do maravilhoso Abraços Partidos (LosAbrazos Rotos, 2009), com o Hermes. Ficamos bebendo e conversando a madrugada toda com aquela sensação boa que se impõe depois de um filme do Amodóvar. Sentir e entender? Não, sentir e perceber. Há uma grande diferença nisso.
Quarta: A tarde toda na varanda, sob um solzinho acolhedor acompanhado de vento, escrevendo e assistindo à alguns videos no Youtube. À noite, a Adri me liga: ela e Morg estão saindo pra jantar e querem que eu vá junto. Eu aceito na hora. Noite de conversa despretensiosa e opiniões radicais, ao lado de planos grandiosos para o próximo ano. No fim, devoro um cachorro-quente sentado sozinho na esquina da Lima com a República e penso em como é bom ser eu, apesar de tudo (“Eu é um outro”). Volto pra casa com um sorriso no rosto e uma vontade de escrever. Escrevo um pouco no blog e logo vem o sono. Desligo o computador e
*Espero que o resto da semana mantenha essa leveza e reserve outras boas supresas como estas.
Depois de ter passado uma madrugada péssima, curando uma ressaca memorável causada por duas noites consecutivas de bebedeiras homéricas (aniversário do Ocidente num dia e vernissage da exposição do Bruno Gularte Barreto no outro), me encontro agora já quase recuperado. Porém, passei as últimas horas com uma promessa íntima de não chegar perto de bebidas alcoolicas por um bom tempo. Vamos ver se vou conseguir…
Então, durante essas horas madrugada adentro li um monte de coisas - a maioria na web: posts em blogs daqui e dali, textos sobre psicanálise que eu tava pra ler há tempos mas sempre protelava, trechos de entrevistas com uns caras que eu curto e, de tempos em tempos, olhava no Google pra ver se tinha alguma atualização de notícias sobre o estado de saúde do Mário Bortolotto, um dramaturgo que eu conheci há uns meses, quando fiz a oficina ministrada por ele -um cara muito, muito gente fina. Pois é, ele e um amigo foram baleados durante um assalto à um bar que ficava no espaço dos Parlapatões, na Roosevwelt, em SP. Tinha uma galera com eles, bebendo, nisso chegaram quatro assaltantes. O Mário reagiu e começou a merda. Três tiros, que perfuraram o pescoço, o coração, o pulmão e o cotovelo do cara: agora ele tá lá, internado na UTI em estado grave. O amigo dele que levou o tiro tá bem. Isso foi na madrugada de ontem. Porra, sabe, os caras querem assaltar gente do teatro! Ah, vão se foder!, como diria o Mário.
A Fê Mandagará e a Vanise Carneiro contaram que por pouco não tavam lá na hora dos tiros. A Fê porque desistiu de última hora de ir aquela noite encontrar eles; já a Vanise foi, mas por sorte saiu um pouco antes dos filhos da puta chegarem. Olha, Mário, sei que a gente se conhece pouco pra eu ficar te mandando mensagens positivas por este blog, mas de qualquer forma vai lá: segura as pontas aí, cara. Faz aquilo que tu escreveu no último post do teu blog: volta pro bar, junto com os amigos, que tudo vai ficar bem. E como tu mesmo disse, tu sempre volta.
O mundo é bizarro mesmo, disso não tenho mais dúvida. E das coisas que andei lendo, tinha umas doideras sobre o conceito de histeria coletiva e uma história de um tal de um “homem-macaco” que andou atacando umas pessoas na Índia, lá por 2001. Segundo as “vítimas”, ele tinha cerca de 1,30 e parecia um vulto; atacava com mordidas e fugia numa velocidade absurda. Mas não foram uma ou duas pessoas apenas que foram atacadas: foram centenas! Daí fui entrando nos links e lendo sobre outras histórias parecidas… bizarro.
No meio disso eu, que tava com a TV ligada na MTV ouvindo meio distraído as músicas dos clipes que tavam passando, parei pra assistir a um do Depeche Mode (Fragile Tension) que eu achei muito do caralho.
O David Gahan fica lá, cantando e se desintegrando, evaporando em imagens hi-tech de animação digital que às vezes lembram o visual do protetor de tela do Windows Media Player, mas é exatamente isso que faz desse um clipe tão legal. Além da música, é claro, que é ótima! A letra me lembrou coisas que eu tava pesquisando sobre os conceitos de neuroses, histerias, etc.: sonhos, obssessão, colapso, sensação de vertigem, “kicks and screams“… parecia apropriado, de alguma forma. Nunca fui grande conhecedor do som deles, portanto fui procurar mais informações e fiquei sabendo que a tal música é do último disco (Sounds of the Universe) e tal; fui pro Youtube e assisti ao clipe de Wrong, outra do mesmo álbum e que é bem boa também. O vídeo é sombrio e tem tudo a ver com isso que eu falava sobre esse ser um mundo bizarro. Conforme eu ia acompanhando a jornada do pobre-coitado dentro daquele carro, a música ia (em retrospecto) arrastando pelo caminho tudo o que eu andei pensando nas últimas 12 horas: psicanálise (“The wrong questions with the wrong replies“),asescolhas feitas até aqui (“It was the wrong plan, in the wrong hands“), ressacas acompanhadas com promessas de mudar de vida (“There’s something wrong with me chemically / Something wrong with me inherently / The wrong mix in the wrong genes“), os tiros do Bortolotto (“I was in the wrong place at the wrong time“), as pessoas que eu deixo se aproximarem a uma distância muito curta e, às vezes também, perigosa (“was marching to the wrong drum / With the wrong scum / Pissing out the wrong energy / Using all the wrong lines / And the wrong signs / With the wrong intensity“), a incerteza constante de viver do jeito que se vive (“I was on the wrong page of the wrong book / With the wrong rendition of the wrong look / With the wrong moon, every wrong night / With the wrong tune playing till it sounded right, yeah! /Wrong / Wrong / Too long.“).
Mas é isso: a vida é como a Mulholland Drive do Lynch; não tem acostamento, então só o que dá pra fazer é seguir em frente. Se parar, vem outro carro e passa por cima da gente. Sim, esse mundo é mesmo bizarro.
5h35 da manhã. Na sacada, como tem sido costume nessas noites quentes, lendo umas coisas bem boas nuns blogs por aí e ouvindo música. Porra, não consigo largar o Songs For Drella … !!! …
“my skin’s as peal as like outdoors moon, my hair’s silver like a Tiffany watch“
(sim, eles tão falando daquela bixa louquíssima e genial mesmo!)
… larguei um pouco o Dylan de lado pra ficar com o Lou. Escolhas, é como eles chamam lá fora. Sei lá como eu mesmo chamo, pois não pretendo nominar as coisas boas, só aceitá-las. Tem sido bom com o Lou e com o John. Tenho me sentido empolgado como há tempos não me sentia com qualquer manifestação de expressão artística. É certo que devo estar me auto-enganando, primeiro porque eu sou bom nisso, depois porque tenho lido e visto um monte de coisas incríveis que me fazem sentir um cem número de sensações diferentes e até mesmo contraditórias… mas é que música me ganha, sabe? É fácil, quando tem música no meio. Talvez por que eu seja um apreciador do silêncio. E também porque eu sou um falador compulsivo, por isso preciso dos momentos onde nada está ali pra me fazer falar ou ouvir, mas quando se trata de música… no caso do “…Drella”, eu não canso de ouvir. Pelo menos até agora.
“It’s a Czechoslovakian custom my mother passed on to me“
Daqui dá pra ver o sol nascendo e com ele vem a sensação de que de agora em diante qualquer coisa pode acontecer. E pode mesmo: aceitei o convite do Bruno Gularte Barreto pra ficar vendendo os livros de fotos dele durante sua vernissage, que vai ser dia 04 de Dezembro. Não vou poder encher a cara, ele avisou, mas em compensação vou ganhar uns trocados, algo que tem sido bem raro na atual conjuntura, feita de 12 projetos escritos desde Janeiro - dos quais 9 foram reprovados… nem sei se acredito mais nas possibilidades dos outros 3 serem aprovados, mas algumas coisas não sou eu que decido, anyway… Eu só tô aqui, escrevendo e vendo o nascer do sol - é só o que eu sei fazer da vida. Um dia que nasce pode significar um dia a mais ou um dia a menos também, depende de como a gente sente uma coisa assim e isso pode ser lido de maneiras diversas também.
“Open House“
E tenho me sentido meio aventureiro ultimamente. Começou quando uma amiga me perguntou, enquanto bebíamos e falávamos sobre a vida: “o que tu vai fazer depois que terminar a Feira?” veio um silêncio (eu realmente gosto da companhia dele): pela primeira vez em anos eu não sabia a resposta. Pra falar a verdade eu não consigo lembrar uma única ocasião na minha vida onde eu NÃO soubesse o que iria fazer a seguir. Sempre fui muito cuidadoso nesse ponto, talvez porque eu saiba bem o que quero pra mim e aonde quero chegar (mesmo que ainda não saiba bem quem e quantos eu sou - o que às vezes me traz alguns problemas e atrasos no trajeto). Ou pode ser porque, até então, nunca ninguém havia me feito tal pergunta bem numa fase onde nem eu mesmo soubesse a resposta. Então, enquanto eu me esforçava pra responder, alguma coisa meio que se rompeu na minha cabeça, como um derrame, com sangue coagulando dentro do meu cérebro e tudo; um desnorteamento e um calor que só me possibilitaram responder, meio aflito, meio liberto: “não sei. Absolutamente, não sei”. Desde lá, cada dia que se passa tenho considerado uma espécie de, hum, não quero dizer presente, porque é uma metáfora piegas e ao mesmo tempo não expressa exatamente o que eu quero dizer… sinto como se cada dia fosse uma espécie de bônus. Não, também não! Uma “vidinha” no videogame, é isso! Não, não… uma vidinha é algo super!, e isso ainda tá por vir… cada dia tem sido mais como um quadradinho na “vidinha” do meu videogame que tem milhares de fases e é feito de muito esforço e algumas decepções. “Ploim! Twilll” Toinhoinhoinhoi… Game Over”. Continue?”. Não, reset mesmo.
“Hello, it’s me“
Sabe o que é? É que o lance é difícil pra quem escolheu o que eu escolhi e não vive de fortunas arrecadadas com esforços alheios. Veja bem: o Bandido tá sem internet, o Ara tá mandando currículos pra empregos em locadoras (eu mesmo já trabalhei numa locadora uma época… é, a gente faz o que pode… Mas não esquenta: hora dessas eles nos publicam por aí e a gente aproveita e aprende de uma vez por todas!). A Alice tá gritando de dor por sentir demais – e que bom que ela tem a coragem de gritar! - e comprando passagens de avião em promoções pra poder derramar as cinzas lá de cima. Encontrei ela no fim de semana. Intensa, sempre, até quando fala manso. Gosto disso nela.
“Hello, it’s me… Open House“
Ontem a noite assisti outra vez ao Lady Day. A Melissa Arievo tá incrível na pele da Billie reinventada por ela e o espetáculo tá cada vez melhor. Depois que saímos de lá me ocorreu algo que me deixou um pouco triste, mas que não durou muito pois eu tive a sorte de ser uma noite na companhia de amigos e de bons conhecidos. Andando com eles na rua e vendo o jeito como se comportavam me deu uma vontade de dizer “obrigado”… Obrigado por não serem tão pesados; por tratarem as coisas com a leveza que elas requerem às vezes. Acho que é porque eu andei desacostumado com a leveza até há um tempo atrás; porque estive lidando com muitas coisas ruins que me disseram que eu era e que eu acreditei que fosse verdade (acredito bastante “nas gentes” por aí pois tenho uma tendência muito grande pra confiar - It’s a Czechoslovakian custom my mother passed on to me -, mesmo que isso seja pouco recomendado pra quem mora nesse “Brooklyn da sensibilidade” que é Porto Alegre). Mas no fim me dei conta que, se as pessoas se enganam até sobre si mesmas, imagina quando se trata dos outros, então, que elas mal conhecem?! Quantos equívocos elas não devem erguer junto com o arco, há muito retesado, só pra que possam seguir em frente.
“They really hated you, now all that’s changed
but I have some resentments that can never be unmade”
Um dia, diante da pergunta que fiz a mim mesmo sobre quem, afinal, eu era, criei uma auto-definição que, meses depois, o Pirandello abençoou com seu aceno nas páginas de um livro: “Também sou“.
“You hit me where it hurt I didn’t laugh
your diaries are not a worthy epitaph“
Por isso, na próxima vez, apenas siga. Isso vai bastar pra que as flechas que sobrevoam os céus com intenções amordaçantes caiam sobre as cabeças como se fossem suaves gotas de chuva.
“The way to make friends, Andy, is invite them up for tea“
E o Sol já tá aparecendo aqui, forte e desafiador. Ele dá a sensação de que sabe exatamente pra que vem. Bom isso no Sol. Já a Lua meio que disfarça a sua chegada. Quando nos damos conta, ela já tá lá, branca e pela metade. Mordida como uma maçã prateada.
“Fly me to the moon fly me to a star“
Alguém escreveu que a Lua é a rainha dos disfarces. Se for assim, então o Sol é a
certeza daquilo que se é.
E resta ainda a definição do Rimbaud:
“Toda lua é atroz e todo sol, amargo”.
Então, cidadãos respeitáveis, na próxima vez em que alguém os visitar lembrem-se de abrir bem as portas das suas casas, cedendo passagem ao visitante, simplesmente, sem impor a ele como deve se comportar por ali, pois as pessoas são - por natureza - diferentes umas das outras. E caso vocês sintam vontade de dizer isso (“as coisas não são melhores ou piores, apenas diferentes“), digam no momento mesmo em que sentirem, e de preferência enquanto o outro ainda os puder ouvir, e não depois, quando o tal visitante já tiver partido, pois isso seria como tentar preencher os espaços da casa com palavras pronunciadas numa língua morta, quando já nada mais cabe ali, exceto o silêncio - esse bom e velho amigo, companheiro nas noites sem música, nos dias sem sol e nas horas de fome, seja por comida ou por tudo aquilo que ainda se quer ser.
“Eu aceito o caos. Só não tenho certeza se ele me aceita.“, disse certa vez o Dylan ou o Rimbaud, não sei ao certo. Pois dia desses, mexendo na bagunça que acumulo na minha estante, encontrei um pequeno caderno de anotações. Ao folheá-lo, lembrei de um determinado período deste ano: era lá por Abril ou Maio; fazíamos a segunda temporada consecutiva de Teresa e o Aquário, na Sala Álvaro Moreyra. Sissi, Leo, Kalisy, João, Bruno, Lisandro, Roger e eu costumávamos sair do teatro pra irmos jantar juntos e depois beber em bares por aí, aproveitando esses momentos em que um objetivo comum nos reunia. E assim, sorvendo o quanto nossos trocados e moedas ainda podiam nos presentear, esquecíamos - como é costume - as decepções e angústias que cada um trazia consigo e que, naquela época, ainda eram pulsante para alguns de nós. Nessas noites, onde só o que restava era seguir o imperativo do tempo e esperar que ele mesmo - causador de certos ferimentos - fizesse seus curativos invisíveis, nós confrontávamos a tristeza com álcool e gargalhadas ferozes (algo do tipo: “se ela é foda, eu sou ainda mais!”).
E foi durante uma dessas noites inspiradas que inventamos um jogo: a partir de palavras aleatórias e sem qualquer obrigação ou regra específica, exceto o divertimento, criávamos pequenos textos poéticos. Pequenos regurgitamentos de memórias, imagens e sonoridades que pulavam – elas também – bêbadas sobre a mesa; se a um ocorria algo, outros acrescentavam palavras e frases, mexiam aqui e ali na estrutura, num processo de anotação rápida como relâmpagos de inspiração que nos esforçávamos pra registrar – sabedores que somos da brevidade dos instantes.
Assim, noite após noite, foram surgindo os textos e os desenhos que hoje tenho guardados nas páginas destes cadernos. Assim também, misturados uns aos outros, organizamos a nossa ode ao caos e à indisciplina; rabiscos com garranchos ilegíveis, que denotam mais a empolgação daqueles instantes do que o descuido da pressa. Objetos raros, que trazem em si um pouco da imaginação de cada um, e de todos nós como um grupo conectado. E esses momentos despretensiosos – e às vezes até ingênuos - serão sempre lembrados por mim como momentos vividos entre amigos, onde os drinks e a liberdade criativa nos davam o que de mais divertido podemos ter na vida: a sensação de que no fundo o que fazemos é (e sempre será, devido à sua própria natureza) uma grande brincadeira – nonsense, talvez, masimensamenteprazerosa - apesar das dores que eventualmente temos que suportar.
Então reproduzo abaixo o segundo texto desta série que a Sissi apelidou de “Poeminhas de Bar“, ou também, numa desarticulação da fala, ”Poesinhas de Mar” (clique aqui para ler os primeiros que a Sissi postou no blog do Teresa). Foi este aí embaixo que eu encontrei em meio à bagunça do meu quarto e que me fez finalmente decidir mostrá-los. Prometo que a partir de hoje postarei um por dia, antes que o ano termine. Mas antes ainda - e já antecipando os momentos parecidos que virão em 2010 - um brinde aos bons amigos, às noites de embriaguez e ao ”desregramento de todos os sentidos”!
Último final de semana de trabalho na 55ª Feira do Livro – a partir da próxima segunda-feira estarei entre os números das estatisticas de desemprego no país e mais uma vez sem saber como pagar o aluguel no fim do mês. Quanto à Feira, apesar do cansaço e de alguns contratempos, no geral tem sido uma experiência bem divertida. Tenho conhecido um monte de gente legal, reencontrado alguns amigos que também estão trabalhando por lá, além de conversar direto com o Hermes Bernardi Jr. (um escritor daqui de Porto Alegre, fundador da editora Armazém dos Livros), com quem tenho trocado impressões sobre o processo de escrita e as implicações do ofício no nosso dia a dia. Além disso, outra boa notícia é que Domingo passado apresentamos a leitura dramática de Estação NY – Contos de Woody Allen, lá na Tenda de Pasárgada - coincidentemente, o mesmo espaço onde eu trabalho. Tava com um bom público e as pessoas, aparentemente, se divertiram com as três histórias que apresentamos (mais informações no post abaixo ou no link
Então, pra comemorarmos esta segunda leitura (a primeira foi no Quinquilharia, em Setembro último; pela foto abaixo, dá pra ver como a galera tava animada:
Who’s that bitch?!
), vou postar as fotos da tal função mais recente. Fica aqui o meu agradecimento especial aos atores, que toparam (e têm topado sempre!) essas enrascadas em que eu os coloco. Mas o bom é que, apesar de tudo, temos aprendido a nos divertir juntos. Afinal de contas, como diria meu amigo Contreras, “a gente é um grupo ou não é?”. Nesse caso, me parece que estamos conseguindo ser.
PS: Tive que editar algumas das fotos abaixo pra evitar o quanto fosse possível fazer merchandising de um produto que (até aqui, ao menos) não patrocina em nada a minha vida de escritor iniciante e pé-de-chinelo.
ESTAÇÃO NY – Contos de Woody Allen
Fotos por Bruna Schuch
Da esquerda para a direita: Sofia Ferreira, Ian Ramil, Fernando Kike Barbosa, Tefa Polidoro, Francine Kliemann.
Galera, estou há um tempo sem atualizar o blog, eu sei. Mas é que estou escrevendo um novo e longuíssimo post. Mas como ainda é apenas um rascunho (tenho muitos assunstos sobre os quais quero falar e tem sobrado pouco tempo pra isso) creio que ainda vai demorar pra finalizá-lo e finalmente torná-lo público.
Porém, estou escrevendo agora só pra avisar (de última hora) que hoje, Domingo, dia 08 de Novembro, às 18h, faremos uma leitura dramática dos textos do Woody Allen que eu adaptei no ano passado, durante o processo de ensaios de uma peça que infelizmente não chegou a estrear. A leitura de Estação NY – Contos de Woody Allen ocorrerá dentro da programação da 55ª Feira do Livro de Porto Alegre, na Tenda de Pasárgada (que fica entre o Santander Cultural e o Memorial do Rio Grande do Sul, não tem erro!). A entrada é franca - basta chegar uns 15 minutos antes pra garantir lugar. Ah, e se estiver muito calor na rua, lá dentro tem ar-condicionado, o que tornará tudo muito mais agradável.
Leitura Dramática de Estação NY – Contos de Woody Allen
Adaptação: Diones Camargo
Elenco:
Fernando Kike Barbosa
Francine Kliemann
Ian Ramil
Sofia Ferreira
Tefa Polidoro
Duração: 40 min., aprox.
ENTRADA FRANCA
É isso. Espero ver os amigos por lá e que todos deixem a Maria Elena interior sair pra dar uma volta, comprar uns livros e ainda se divertir com o humor absurdo do bom e velho judeu. Não, não é desse que estou falando…
Tempos atrás encontrei este vídeo no Youtube. Não o tinha visto até então, apenas ouvido alguns comentários sobre. É uma compilação de depoimentos de artistas de teatro daqui de Porto Alegre, feita especialmente para ser exibida durante a cerimônia de premiação do Concurso de Dramaturgia Carlos Carvalho, onde cada um dos entrevistados deveria dar sugestões para cenário, figurino e trilha sonora, numa concepção hipotética e pessoal para alguma das peças premiadas. Eu fui um deles. Era metade de julho; um dia friozinho, nublado, mas bem bom. Só quando eu cheguei pra gravar é que me avisaram que eu deveria sugerir coisas para A Cidade do Circo dos Dias Iguais, peça ganhadora do primeiro lugar na edição deste ano do prêmio, e sobre a qual eu nunca sequer tinha ouvido nada além do título… ser pego assim, no susto das idéias, só prova que a minha imaginação vai sempre mais longe do que a minha razão. Ainda bem.
Dias depois, cerimônia de entrega, no final de Julho. Cheguei atrasado, pra variar. Mas dessa vez bem atrasado mesmo, quase no final. O cara primeirão já tava lá em cima, terminando o discurso, e a galera - uma meia dúzia de gatos pingados - aplaudindo muito. Saí pro saguão louco por um drink e pensando porque eles aplaudiram tanto – o cara devia ser foda mesmo: não apenas escrevia textos, como também fazia discursos campeões! Daí as pessoas começaram a chegar pro “coquetel-bate-cabelo” e ficavam dizendo como eu tava engraçado no vídeo, que tinham achado as minhas sugestões ótimas, etc. Eu não fazia idéia do que elas estavam falando, mas sorria e comentava alguma coisa boba enquanto esperava o álcool fazer efeito. Porém, quando eu me vi no tal vídeo, finalmente entendi o que aquelas pessoas queriam dizer com “engraçado’.
Assim é a vida: uns fazem discursos inspiradores, outros dão depoimentos esdrúxulos, e mesmo assim ambos recebem elogios… pena que só um deles fica com o dinheiro do prêmio.
Comecei a ler POEMAS (The Collected Poems), da Sylvia Plath, por recomendação de um amigo. Na verdade comprei o livro no início deste ano e na época li um ou dois textos, mas até então nunca tinha me atrevido a mergulhar nele por causa de todo esse lance que tem em volta da autora, essa coisa toda que é amplamente comentada sobre sua vida. Pois bem, essa semana tomei coragem e comecei. É impressionante. Poesia requer atenção, cuidado e sensibilidade durante a leitura. Pois eu tenho lido e relido e a cada novo poema eu fico mais encantado com as imagens e os ritmos que surgem daquilo. Tem dois – até a página onde fui – que eu acho incríveis: Olmo e Lesbos. O primeiro começa assim:
“Sei o que há no fundo, ela diz. Conheço com minha própria raiz.
Era o que você temia.
Eu não: eu já estive lá.
É o mar que você ouve em mim,
suas frustrações?
Ou a voz do nada, essa é a sua loucura?“
Já o segundo é uma quebra completa na linguagem e no tom do que Plath vinha criando até ali. Tem uma energia, um deboche e uma dor latentes, como se ela simplesmente entrasse louca em casa, gritando e quebrando tudo. Deve ter sido assim, ao menos emocionalmente, pra ela: o poema foi escrito num momento crítico da sua vida.
No final do livro tem um apêndice com uns artigos que foram escritos pelos tradutores da obra, Maurício Arruda Mendonça e Rodrigo Garcia Lopes (aliás, este último acaba de ganhar a Bolsa de Estímulo à Criação Literária da Funarte). Eu ainda não pretendo ler esses artigos, pois antes quero me familiarizar um pouco mais com os escritos de Sylvia, mas passei os olhos por lá e li duas coisas que achei interessante compartilhar aqui. A primeira é do seu caderno de notas:
“O que mais me apavora, penso, é a morte da imaginação. Quando o céu lá fora é só cor de rosa e os telhados, negros: aquela mente fotográfica que paradoxalmente nos revela a verdade, mas a verdade do mundo, que nada vale. O que eu desejo é aquele espírito sintetizador, aquela força ‘que dá forma’ e que faz rebrotar prolificamente criando suas próprias palavras com mais inventividade do que Deus. Se eu sento aqui e não faço nada, o mundo prossegue batendo como um tambor flácido, sem significado.”
A segunda é duma entrevista concedida à BBC:
“Poesia é uma disciplina tirânica. Você tem que ir tão longe, tão rápido, em tão pouco tempo, que nem sempre é possível dar conta do periférico. Num romance talvez eu possa conseguir mais da vida, mas num poema eu consigo uma vida mais intensa.”
Imaginação e intensidade. Duas coisas que talvez possam ajudar os entediados por aí a enxergarem algum tipo de poesia na vida, mesmo na sufocante repetição cotidiana na qual eles estão aprisionados. E isso (já avisava o Cazuza) faz toda a diferença.
Aviso:o título deste post não tem nenhuma intenção de sacadinhas ou trocadilhos idiotas com o nome do autor da frase e o título do filme, ok? Escolhi porque cabe perfeitamente ao que quero dizer e é algo em que eu sempre acreditei.
Dia desses recebi um recado de uma amiga comentando como tinha achado bonitinho o trailer do Where The Wild Things Are, o mais recente filme do Spike Jonze (o mesmo cara que dirigiu Quero ser John Malkoviche Adaptação, ambos com roteiros assinados pelo genial Charlie Kaufman). Realmente, o trailer é muito querido, mas antes que isso vire um post miguxo, vou explicar porque eu gostei tanto.
O roteiro do filme desta vez não tem nada a ver com o Kaufman (que devia estar muito ocupado criando sua obra-prima Synecdoche, New York):é do próprio Jonze em parceria com Dave Eggers, baseados no livro infantil escrito e ilustrado de Maurice Sendak - que até onde eu sei, foi rechaçado quando lançado nos Estados Unidos, em 1963, mas alcançou um sucessoestrondosoentre as crianças nos anos que se seguiram.
O legal da história é que o protagonista, Max, é um menino que, como castigo por ter se comportado mal, é obrigado pela mãe - que o chama de “wild thing” – a ir pro quarto dormir. Deitado em sua cama, ele imagina uma viagem até o território onde vivem os “wild things” do título (a tradução do mesmo no Brasil será Onde Vivem os Monstros). Lá ele é coroado rei pelas criaturas selvagens que habitam o lugar e durante a sua jornada vai descobrindo coisas sobre si mesmo e sobre os seus sentimentos antagônicos em relação à família.
Sei que o livro e o filme falam sobre outras coisas também e, principalmente, sobre nosso aprendizado constante ao lidarmos com sentimentos às vezes não tão nobres, mas a idéia de que um menino malcriado tenha um espaço onde possa ser rei é um alívio*. Numa sociedade como a nossa, onde os “ajustados” e obedientes são tidos como príncipes, é importante lembrarmos que, ao menos na imaginação (esse território vasto), a coroa pertence àqueles que não se satisfazem apenas com o que a realidade prosaica e o pragmatismo funcional podem oferecer às suas almas. Os que têm a coragem de partir em busca daquilo que desejam profundamente, esses sim, encontram os reinos mais raros e interessantes.
*Não confundir rei com criança mimada! Essas últimas se limitam a atirar sacolas de compras no chão, a quebrar os brinquedos quando contrariadas e a fazer birra por qualquer coisinha.
PS1: É claro que eu vou ver o filme. E é claro que, quando for lançado, vou dar o livro de presente pro meu sobrinho! Por enquanto, ficamos com o link do trailer, logo abaixo:
PS2: 04h11 da madrugada e eu aqui, na sacada de casa, há horas escrevendo sob um céu estrelado, num silêncio que só é rompido pelos sons das teclas, dos carros, dos pássaros e morcegos à minha volta. Durante o dia recomeça a chuva e o frio, eu sei. Mas sem problemas… o verão já tá chegando.
Parte 1 -26/09 - 23h34 - Tô há horas em volta deste blog, tentando pensar em algo pra postar. Ontem eu vim pra casa decidido a escrever, não só aqui, mas principalmente ficção. Daí fiquei enrolando, depois saí pra encontrar uns amigos, voltei pra casa e dormi. Hoje acordei com a sensação de que tinha passado; que eu tinha perdido o trem. Fiquei o dia tentando “comprar um novo ticket” pra começar esta viagem… mas é foda! Parece que não apenas o trem partiu, como também o guichê das passagens fechou. Tá, não é tão trágico! Amanhã certamente conseguirei escrever e tudo voltará ao normal. Mas por enquanto fico aqui, tentando narrar a frustração que é tentar escrever e não ter nada de importante pra contar (aliás, isso é assunto de uma peça que eu comecei há pouco mais de um mês). Lógico que aconteceram coisas interessantes nas últimas semanas, mas é que é foda quando tu sabe que tu não quer contar sobre as últimas semanas. Tu quer descobrir o novo, não o que passou! Bom, só me resta continuar por aqui, pensando. Se me ocorrer alguma coisa eu volto e complemento este post. Ninguém mandou eu ser tão procrastinador. E isso só comprova que, tanto na arte quanto na vida, existem coisas que são delicadas demais pra se agir com tamanho descuido.
Parte 2 -27/09 – 2h11 – Sono. Jantei há pouco (bem tarde, por sinal) daí bateu o sono. Já desisti de ver filme, desisti de ler, mas ainda não tinha desistido de escrever alguma coisa que prestasse. Em compensação a única coisa que faço agora é contar que jantei bem tarde e que a digestão me causa sono. Wow! Que grande escritor eu sou! Tá, é isso; tá decidido: vou escovar os dentes e deitar. Com esse barulhinho de chuva vai ser fácil dormir. Talvez amanhã eu acorde cedo e com uma idéia interessante pra escrever. Talvez não. Pelo visto esse post aqui vai durar mais que os outros.
Parte 3 – 29/09 -05h05 – Duas madrugadas já se passaram e nesses dois dias eu trabalhei pra caralho, atualizando e revisando textos, respondendo e-mails e movimentando as coisas pra próxima leitura dramática (nesta sexta). Nisso recebo um e-mail do Ian Ramil – que, creio eu, está em São Paulo (pra falar a verdade, sei lá por onde aquele dissimulado tem andado realmente; pode estar num congresso na Nova Zelândia, bem como num bordel em New Orleans, sendo mais provável este último!) – contando que assistiu ao “Anticristo”, do Von Trier, e que eu deveria escrever uma crítica sobre, ao invés de ficar contando que jantei e fui dormir. Eu só consegui rir. Nunca vi sujeito mais folgado! (na verdade eu já vi, sim, mas o Ian tem charme, pelo menos).
Ian, larga de ser preguiçoso e vai tu escrever essa crítica! Abandona essas composições que tu nunca mostra pra ninguém e começa uma carreira de crítico cinematográfico. E me empresta mais uns Raymond Carver que nunca voltarão pra ti, porque tenho andado louco pra ler mais coisas daquele velhinho bêbado (aliás, a Francine – que pra quem não sabe, é namorada do Ian – vai ler minha adaptação de um conto dele… do Carver, não do Ian! Participou da leitura do Woody e nesta semana vai ler minha peça adaptada do Borges também. Talentosa ela. Compensa a falta do outro lado nesta relação).
Bom, é isso. Consegui assunto pra mais uma parte. Amanhã escrevo mais nesse post infinito. Até.
Parte 4 – 02/10 – 00h54 – Bom, depois de muito escrever e não chegar a lugar nenhum, encerro aqui com um lembrete: hoje, sexta-feira, dia 02 de Outubro, faremos a leitura dramática da minha peça curta intitulada O Tempo Sem Ponteiros, adaptada do conto Emma Zunz, do Jorge Luis Borges. Será no Quinquilharia (R. Otávio Corrêa, nº 84 – Cidade Baixa), a partir das 22h. Ingressos a R$ 5,00.
Elenco: Francine Kliemann, Sofia Ferreira, Diones Camargo e ator convidado.
Hoje acordei cedo e passei a amanhã toda revisando uns textos - tô preparando um série de leituras dramáticas de 3 peças curtas inéditas -, selecionando contos e outras coisas que tenho escrito ao longo dos anos com a intenção de publicar algumas delas em breve. Mas o que me surpreende é como o texto muda com o tempo. Tá, eu sei que isso soa óbvio, mas é que das coisas que eu estava relendo, algumas que antes me pareciam cheias de significado agora parecem terem sido escritas só pra impressionar outras pessoas que não eu mesmo – ou pra impressionar um outro eu que não é mais quem eu sou agora, sei lá. Já outras, aquelas que eu escrevi em meio a um turbilhão de coisas boas e que antes pareciam apenas engraçadinhas, agora soam como pequenos achados. Tô aqui, nesta entre-safra (projetos, projetos, projetos), ansioso como há tempos não andava, tentando remendar trechos de idéias e ordená-las nas páginas do Word. Mas o melhor de tudo é que esta é uma arte que me permite trabalhar sozinho. No caso das leituras, vou trabalhar com um time de atores incríveis, o que vai tornar tudo muito mais divertido. Espero que em meio a tantas coisas pra fazer a ansiedade desapareça novamente. Se não desaparecer, tudo bem: foda-se! Escrever pra impressionar não é uma boa. Ser alguém diferente só pra impressionar também não faz nenhum sentindo. Ansioso e querendo abraçar o mundo de uma vez só: esse sou eu (hoje, ao menos). Agora vou acabar aqui, fumar um cigarro e ler um pouco.
PS: A foto acima foi criada numa cadeira da faculdade (Linguagem Visual do Teatro). A santa ganhou vida pelo talento de uma atriz louca que eu adoro e que (assim espero) vai trabalhar comigo num desses textos.
Hoje a tarde, enquanto caminhava sob aquele céu nublado que se ergueu de repente - depois de consecutivos dias ensolarados -, eu pensava nas minhas preocupações e nas provações que um aspirante a escritor tem que encarar em sua existência cheia de incertezas quando então lembrei de uma música do Elliott Smith (aliás, há tempos que eu não colocava ele pra tocar no meu computador!). Tava uma tarde estranha, talvez por uma série de motivos que só eu considere estranhos, sei lá; meus pensamentos iam e viam - desordenados, porém tranquilos - e eu me satisfazia em misturar ainda mais as coisas, porque pelo menos na minha cabeça acho que quanto mais as misturo, mais as organizo. E nessas idas e vindas, dentro dos meus pensamentos ou na calçada que vez que outra indicava com alguns pingos que as nuvens já começavam a despencar, lembrei deste trecho de uma entrevista que li há uns tempos, entre o Philip Roth e a Edna O’brien, num livro que eu comprei imaginando que trocaria já no dia seguinte:
“Roth:Quer dizer que você, uma mulher vivida, ainda fala em perdoar sua mãe e seu pai. Você acha que se preocupa com esses problemas até hoje principalmente por ser escritora? Se você não fosse escritora, e sim advogada, ou médica, talvez você não pensasse tanto nestas pessoas.
O’brien: Exatamente. É o preço que se paga por ser escritor. A gente vive atormentada pelo passado – dores, sensações, rejeições, e por aí vai. Eu realmente acredito que esse apego ao passado é um desejo insistente, ainda que fadado ao fracasso, de reinventá-lo de modo a modificá-lo. Os médicos, os advogados e muitos outros cidadãos sólidos não são atormentados por uma memória persistente. À maneira deles, podem até ser tão atormentados quanto eu ou você, só que não sabem disso. Eles não vivem escavando.“
Voltei pra casa e já faz horas que estou na frente deste computador escrevendo dois projetos e organizando as idéias dos respectivos textos (outro jeito das coisas se ajeitarem na minha cabeça). Mas, apesar de concordar com Edna e admirar a sua franqueza durante toda a entrevista, me sinto muito feliz em, algumas vezes, ter deixado o passado pra trás e nunca ter voltado a ele. Às vezes o passado é um cheiro, um toque, uma risada. Mas na maioria das vezes é só o passado. Que bom que eu não troquei o livro! E que bom é ouvir o Elliott sussurrando no meu ouvido! Pena que ele morreu…bom,mas isso também é passado.
Sempre fui alheio à idéia de ter um blog - nunca desejei ser obrigado a escrever coisas e postar com certa regularidade em um deles. No ano passado eu finalmente criei um (www.dionescamargo.blogspot.com) com o intuito de usá-lo como uma espécie de portfólio para o meu trabalho de dramaturgia. Porém, após algum tempo, passei cada mais a ser cobrado pelos meus amigos, que pediam que eu atualizasse as postagens, escrevesse novos textos, etc. Enfim: o que eles sugeriam é que eu fizesse exatamente aquilo à que eu sempre tive aversão: escrever bobagens numa página e depois deixá-las expostas e disponíveis pra qualquer um ler.
Eu sou um péssimo leitor digital. Sou pouco assíduo e muitos dos sites que adiciono aos meus favoritos eu sequer chego a revisitar. Além disso, nunca fui adepto da leitura dessas paginazinhas onde se acumulam recortes de personalidades e gostos aleatórios, pois imaginava (não sem alguma razão) que a maioria das coisas escritas em blogs estão longe de ser confessionais, mas tão somente resíduos de masturbação egóica (redundância?) vinculadas a uma grande dose de autocomplacência. Ironicamente, cá estou eu, iniciando um caminho que certamente vai passar, vez que outra, pelas mesmas adjetivações.
Mas entre todas as coisas interessantes que têm me acontecido nos últimos meses, venho sentindo uma súbita vontade de escrever com mais regularidade e com um jeito mais descompromissado, de modo a desenvolver algum tipo de agilidade na escrita e alcançar um imediatismo no conteúdo (algo como o que o Calvino falava no Seis Propostas…, no capítulo sobre a velocidade). Acho que foi por isso que comecei este blog. Pra poder exercitar um olhar mais flexível sobre as coisas e poder registrar minhas contradições e mudanças bruscas de opinião.
Além disso, existe o fato de que recentemente eu descobri algo importante numa das sessões de análise - algo relacionado à diários. Mas talvez o principal desencadeador foi a oficina de dramaturgia do Mário Bortolotto que eu fiz semana passada. Entre todos os participantes, tinha dois caras, de uns 20 e poucos anos, talvez nem isso, que escreveram uns textos bem legais (um desses garotos eu já tinha visto na etílica festa de aniversário da Alice*, há menos de um mês). Fuçando, encontrei eles no orkut e depois fui dar uma olhada nas páginas pessoais deles. Ah, e o Mário também tem um blog que eu andei lendo direto na última semana!
Motivado, então, por todos estes elementos - a mistura entre necessidade de um tipo diferente de diário (minha analista vai gostar de saber que arranjei um jeito pra resolver isso) plusnecessidade de escrever com mais rapidez e menos compromisso (talvez eu devesse expandir estes critérios para minha vida sexual também!) plusas coisas interessantes que ando lendo em blogs por aí nos últimos tempos - comecei este BRAVE |brand new| WORLD e aqui deposito o meu primeiro post. Como bom neurótico, inauguro este espaço dissecando e explicando o porquê eu fiz o que fiz. Um dia eu aprendo a ser menos almofadinha.
E aos que desejam me perguntar porque eu escolhi este título (que pode mudar a qualquer momento) pra um blog, minha resposta é simples: digitei casualmente só pra preencher o campo e no fim achei interessante. Sim, eu gosto muito do título do livro do Huxley (tanto quanto do próprio livro). E sim, eu mesmo tenho desbravado tantos mundos desde sempre que me sinto um nômade existencial, andando e procurando sempre por novos territórios que até então eu imaginava remotos ou mesmo inexistentes.
Ser mais leve (esta também é outra das propostas do Calvino). Procurar por dias mais iluminados. Acho que esses dois objetivos recentes na minha vida estão me estimulando a ver a existência com mais possibilidades do que imaginava haver antes. Mas não sou de todo idiota: sei que a vida não é nenhum parque de diversões e que ver as coisas de um jeito mais leve vez que outra é necessário, mas que os tombos estão sempre à espreita nas esquinas, só esperando pra fazer o nosso olhar despencar das sofisticadas vitrines e se esborrachar ao lado de um cadarço desamarrado numa calçada suja por aí.
PS: Falando em parque, voltamos em cartaz com Parque de Diversões, o monólogo que eu escrevi e dirigi em parceria com o Contreras. Temos apenas mais uma apresentação na próxima quarta-feira, dia 26 de Agosto, às 22h, no Bar Ocidente, de Porto Alegre. Quem quiser saber mais sobre, este é o link do blog da peça:
* Alice Castiel, uma garota intrigante que tem um blog também (www.fatoseformas.blogspot.com), onde ela escreve coisas muito interessantes.
Bom início pra nós. As correções e ajustes nos textos vou fazendo durante a semana, pois quero deixar de lado a porra da neurose que me obriga a revisar cinquenta mil vezes um texto antes de mostrá-lo. Até breve.
Sou dramaturgo e escritor, autor de Hotel Fuck, Nove Mentiras Sobre a Verdade, Andy / Edie, Parque de Diversões, e dos inéditos Elevador, Peça Comercial e O Tempo Sem Ponteiros; Dramaturgista dos espetáculos Peru, NY, Teresa e o Aquário e Buarqueanas.
Para conhecer meus textos sobre teatro, cinema e dramaturgia, acesse também o blog
Workshop MÉTODOS TEATRAIS -CRIAÇÃO ATRAVÉS DO ATOR, com Maurício Both, Tatiana Vinhais e Diones Camargo. De 14 a 16/02: http://t.co/i4jGYKZ3 >>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>> Escrito há 2 hours ago