PS: Fiquei séculos editando este post, arrumando uma coisa aqui, outra ali. Nesse meio tempo o Salinger morreu, a temperatura em Porto Alegre se tornou insuportável, enviei o primeiro projeto de 2010, terminei um longo artigo sobre dramaturgia, revisei uma peça, escrevi mais algumas coisas, li mais uns livros e assisti a mais alguns filmes. Uma estranha repetição de eventos, só que de um jeito completamente diferente. Bem-vindos de volta.
Bom, depois de quase um mês sem postar nada, resolvi atualizar este blog. Pouco depois do ano começar, lá pelo dia 02 ou 03 de Janeiro, eu havia escrito um longo texto contando como tinha sido a virada e tal… havia me proposto a escrever detalhadamente as coisas que aconteceram não apenas nos dias que precederam o Réveillon, mas também nos que o sucederam. Desisti. Primeiro porque é muito egocentrismo achar que alguém vai se interessar em ler um texto enorme contando como eu me diverti na virada, blá, blá, blá. Segundo porque eu comecei a escrever uma outra coisa, me empolguei, e não queria mais saber de reproduzir fatos cotidianos em posts. Mas cá estou eu, de volta, porque deu saudade do blog. Portanto, vou postar trechos retirados do longo texto original (e incompleto) sobre a tal viagem de ano novo e falar em poucas palavras e - algumas imagens - das coisas que aconteceram nesse primeiro mês de 2010. Acompanhe aí, se tiver paciência.
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ÚLTIMOS DIAS DE 2009
Considero alguns acontecimentos da minha existência como espécies de marcos simbólicos, os quais, quando olho pra trás, lá adiante, reconheço neles um pouco “daqueles” que um dia eu fui: os portos, as peles, as máscaras que eu deixei pra trás no trajeto. Mas talvez porque às vezes os acontecimentos são absolutamente irrelevantes - ou talvez porque eu não goste de ficar olhando pra trás por muito tempo, apenas o suficiente pra evaporar de vez a paisagem que vai ficando cada vez mais imprecisa na linha do horizonte - é que decidi aproveitar a força metafórica de renovação presentes nas cerimônias de final de ano pra encerrar 2009 com uma série de marcos simbólicos conscientes e assim, de alguma forma, ter algumas anotações sobre o que esse último ano significou pra mim, pro caso de precisar recorrer a isso no futuro.
E quer saber? Eu acredito nessa coisa meio besta de virada de ano - isso de balanço e desejo de mudança. Acredito mesmo! Muitas vezes eu ouvi gente dizendo que as pessoas não mudam… aquele lance da Rã e o Escorpião, sabe? Nisso, por exemplo, eu não acredito. E é uma afirmação que me irrita um pouco quando ouço porque pressupõe que as pessoas que a proferem sabem tudo sobre o ser humano e então podem dizer com propriedade: “as pessoas não mudam!”. Mas se eu mesmo já mudei tantas vezes, por que os outros não podem mudar?! (e não tô falando de coisas factuais, como emprego, finanças, essas coisas… tô falando de mudança de percepção de si mesmo e da vida à sua volta). Sim, eu sei também que nem todo mundo vai tão fundo nas coisas; que muitos dizem que querem mudar mas no fim não trocam nem uma virgula nos dez mandamentos impressos nos seus genes e nas suas cabeças forjadas em série - muitas vezes por incapacidade de auto-percepção, noutras por uma questão de caráter mesmo, sei lá. Só o que sei é que comecei (ou melhor, continuei) a minha “tentativa” de mudança: fui passar o Natal na casa da minha família e acabei ficando lá por alguns dias – mais do que eu inicialmente havia previsto – o suficiente pra cuidar de coisas que antes eu talvez não desse tanta atenção. Brinquei com o meu sobrinho, li histórias e conversei muito com ele; li pra mim mesmo quando e o quanto eu quis ler; escrevi um pouco, mas bem pouco, que era pra não me chatear com algo que eu gosto tanto. Conversei com minha mãe e tentei injetar um pouco de ânimo naquela alma há muito desgastada por uma certa inaptidão para com o sentido prático da vida - inaptidão que eu herdei e que venho tentando modificar com o tempo. Enfim, quando saí de lá, senti que deixei alguma coisa muito antiga pra trás, uma espécie de símbolo desses bem incrustados na gente, e, felizmente, estava consciente disso. Um Eu despedia-se de todos os outros “Eus” que ainda existem por aqui. A partir dali a jornada seguiria apenas com esses que me restaram.
(…)
Daí encontrei o Francis no cinema. Havíamos combinado que, para encerrarmos um ano como 2009, só mesmo com uma destruição igualmente grandiosa: a destruição simbólica de todas as coisas que existiam até então, com o intuito de limpar o caminho para o que virá a seguir. Foi com esse pensamento filosófico e esse sentimento de renovação - além de pipoca e refrigerante - que adentramos a sessão do filme 2012. Foi MUITO divertido! Humor involuntário e vergonha alheia, sabe? Combinação explosiva! (não vou entrar nos méritos artísticos do filme pois estes simplesmente não existem – e não me venham com aquele papinho de mercado cultural, de indústria cinematográfica e tal, ok? Moro numa cidade fantasma, não numa L.A. cheia de palmeiras e mansões). Durante o filme só senti falta de duas coisas: uma garrafa de Johnny Walker Red e um óculos 3D. De resto, era aguentar até tudo ser destruído e o troço que tava ficando cada vez mais chato finalmente acabar. Eu nunca como pipoca no cinema, mas esse filme mereceu… pra falar a verdade merecia bem mais: uns tomates, por exemplo.
Saí da sessão com a certeza de que o ano estava, enfim, terminando – sim, porque o fato de ser 29 de Dezembro ainda não havia me convencido totalmente: muita coisa pode acontecer em 48h e disso eu já tô (ficando) careca de tanto saber. Por isso passei a madrugada no Van Gogh, bebendo e jogando conversa fora com o Francis e com o Rodri Scalari; cheguei em casa de manhã, bêbado, coloquei minhas roupas e coisas dentro de uma mochila, selecionei alguns livros, caderno de anotações, etc., e me atirei na cama. Fechei os olhos e imediatamente fui acordado pelo despertador. Mais uma vez. E mais outra. Até que olhei de novo: “Merda! Uma hora atrasado!”. Isso, infelizmente, me lembrou o início do tal filme…
(…)
No carro, música a todo volume, um mapa do RS, SC e PN nas mãos, janelas abertas pra deixar entrar o vento que soprava lá de um 2010 já bem próximo, e um óculos emprestado pra poder encarar o sol de frente, como convém pra um jovem que está envelhecendo cada vez mais rápido com a ajuda dos Raios UVB e alguns acompanhamentos nocivos. Muita conversa sobre muita coisa, mas ainda nenhum plano sobre pra onde iríamos passar a virada.
“Subimos ou descemos?” - perguntou o meu amigo que tava na direção.
“Subimos”, respondi.
Não tínhamos idéia pra onde estávamos indo, mas ao menos estávamos subindo. No trajeto, chuva. Encontramos uma pousada que ficava bem ao lado de um rio. Ficamos com o quarto 13 porque o 14 tava com um barulhão no ventilador de teto, que parecia que ia despencar de lá a qualquer momento. Passar a última madrugada de 2009 num quarto de nº 13 pode parecer um erro fatal, não? Tudo bem. Em 2009 parece que tudo funcionou ao contrário mesmo, então essa coincidência talvez até trouxesse sorte nesse encerramento de ciclo. Deixamos as coisas na pousada e, após o banho, saímos pra conhecer o “centrinho”. Sério: ou as pessoas fugiram da sua própria cidade ou a vida social é algo ainda impensado naquele lugar! Meia noite e tivemos de sair do único bar em funcionamento na cidade, pois eles estavam fechando a birosca. Comovidos com a nossa insistência, nos concederam uma dica: se quiséssemos continuar bebendo, teríamos que ir até um posto que ficava na entrada da cidade vizinha. Um lance Twin Peaks, sabe? E lá fomos nós, beber num posto no meio do nada! Acabamos ficamos lá até tarde, confrontando Lou Reed e The Verve com os carros ao lado, que atacavam com músicas sertanejas e sucessos do axé. Tava foda a disputa, mas pelo menos dava pra continuar bebendo e conversando. Fomos embora bêbados e nem lembro direito por qual trajeto nós voltamos. Só lembro que a gente chegou no quarto e resolvemos ir direto pra piscina da pousada, que só era liberada até às 21h. Quem liga pro tempo quando falta menos de 24 horas pro ano mudar? E quem liga se isso ia parecer aqueles seriados adolescentes com um monte de gente bêbadas e sorridentes? O negócio era experimentar pra saber se na TV eles são sempre tão sorridentes porque são felizes ou simplesmente porque estão bêbados. Tendo isso em mente, peguei mais uma lata do frigobar e pulei na piscina. Caralho! Eu ainda sabia nadar! Bêbado e com a braçada meio estranha, mas ainda sabia! “Ótimo!!! Vou precisar dessa habilidade no futuro”, foi a minha única anotação mental.
De manhã, ressaqueira. Encontro o meu amigo já na mesa de café da manhã da pousada, lendo um livro do Umberto Eco. Eu chego rindo: era contrastante aquele intelectual de óculos escuros na mesa de café da manhã com aquele que eu vira há poucas horas fazendo pega na auto-estrada… maldito arruaceiro! De qualquer forma, eu cheguei rindo na mesa, nem lembro porque. Mas e daí mesmo? Retomando: café da manhã, recolher coisas no quarto, deixar pousada, pegar a estrada, revisar mapa, “subir ou descer?” Subir, sempre. Ah, sim! Chegada em Cambará do Sul, a “capital do mel”, pra visitar os cânions. Calma, isso merece uma pausa.
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“Bom mesmo é o livro que quando a gente acaba de ler fica querendo ser um grande amigo do autor, para poder se telefonar para ele toda vez que der vontade. Mas isso é raro de acontecer“
(Página 23)
Um dos melhores e mais divertidos livros que eu li em 2009 foi sem dúvida O Apanhador no Campo de Centeio (The Catcher in the Rye), do J. D. Salinger. Apesar de ter lido já muito tardiamente – parece uma unanimidade entre os seus admiradores que esta é uma obra para ser lida na adolescência –, fui imediatamente puxado pra dentro do universo contraditório e desencantado de Holden Caulfield. Muita gente com quem eu conversei (ou mesmo parte dos comentários que eu achei na internet) se referem ao livro como uma simples “história de adolescente”. Alguns acham o protagonista/narrador um porre e aquilo o que ele conta uma chatice sem fim. Questão de opinião. Eu faço coro com aqueles milhões de leitores que encontraram nas suas páginas pequenos momentos de sarcasmo, imaginação e doses de beleza singela, misturados à uma certa melancolia e rebeldia (às vezes totalmente descabida, sim, mas coerente com o comportamento de qualquer adolescente).
E eu mesmo admito que o Holden traz nele alguns traços psicológicos que eu detesto quando os percebo nas pessoas à minha volta (hesitação, imobilidade, comportamento mimado e volúvel), mas ainda assim ele é um personagem complexíssimo exatamente por trazer em si tantas contradições e por ser alguém tão sensível frente à violência que se esparrama à sua frente. O mundo, para ele, é um espaço que não deixa lugar para descanso: não há quartos de irmã, nem casas de professores, nem bancos de estações que o permitam relaxar e dormir profundamente. Tudo à sua volta é corruptível – se é que já não foi corrompido faz tempo. É uma afirmação pessimista, eu sei, mas pra um jovem como ele, cujo sonho maior é “agarrar todo mundo que vai cair no abismo” – alguém que teve perdas irreparáveis no trajeto e que não sabe muito bem como lidar com elas – essa repetição de acontecimentos passados que lhe voltam à memória ou à vida materializados em pessoas e fatos semelhantes lhe dá uma sensação angustiante de já ter visto tudo o que tinha pra se ver num curto espaço de existência. Uma espécie de velhice precoce (não é a toa que ele, com apenas 16, 17 anos, já tem uma parte dos cabelos grisalhos, que vez que outra é recoberto com o seu clássico “chapéu de caçar gente”). Para ele (assim como para muitos de nós) a vida falha por não conseguir ser como um museu, onde tudo permaneceria sempre exatamente igual. Em vez disso, é um lugar que, mesmo já tendo abrigado épocas felizes, hoje está tomado de “Foda-se” pra qualquer canto em que se olhe. Talvez por isso – por essa repetição de eventos, esse “eterno retorno” que torna tudo pior do que um dia foi – é que Holden crê que já viu tudo e que nada ficará tão melhor assim. Isso talvez explique tanto pessimismo, o comportamento indisciplinado e a sua vontade em acabar com tudo. E é exatamente por não saber como lidar com tantas sensações que se arremessam à sua sensibilidade latente como a de uma criança, que ele resolve se tornar logo um adulto fazendo (ou tentando fazer) coisas de adultos, na tentativa de encarar a vida de frente e rir dela – mesmo que seja com o rosto cheio de sangue e com a boca cortada por dentro. No fim, os ferimentos da alma (muito mais profundos) o levam a uma exaustão paralisadora deixando-o no meio do caminho entre a criança que ele é e o adulto que ele deseja ser, o que nada mais é do que a experiência mesmo da adolescência. E é nesse momento que Holden, assim como a história que ele conta, voltam para o início. Um eterno retorno, que apesar de torturante, “mal acaba de contar, a gente começa a sentir saudades de todo mundo“. E nós, leitores, mais ainda.
Das lembranças que ficaram comigo, tem aquela da luva de beisebol do Allie (e todas as partes em que ele fala do Allie, todas sempre tão lindas); aquela quando o Holden conhece as duas freiras que estão tomando café e comendo apenas torradas e uma delas conversa com ele sobre Romeu e Julieta, e ele fala do Mercuccio e de como acha uma merda que alguém tão legal tivesse se fodido por culpa dos outros; ou quando o professor Antolini fala pro Caulfield sobre como ele deveria se concentrar nas coisas que são realmente importantes e que ele devia se esforçar pra conhecer as reais dimensões da sua mente; ou ainda quando o Holden sai de um bar bêbado e vai sozinho pro lago do Central Park com o que sobrou do disco que ele comprou pra Phoebe, e por aí vai. Só lendo o livro inteiro pra entender o fascínio que ele causa. Mas praqueles que nunca vão ler, indico aqui dois dos capítulos bem curtinhos e divertíssimos:
o capítulo 8, quando o Holden encontra a mãe de um dos colegas dele do Pencey e mente pra ela um montão de coisas, principalmente sobre o filho dela - que segundo ele é um cretino – e que contém esse aparte inspirado:
“Nesse exato instante, o condutor apareceu para conferir a passagem dela, e me deu uma chance de parar com a embromação. Mas até que eu estava satisfeito de ter dito aquelas besteiras. Um sujeito assim como o Morrow, que está sempre batendo com a toalha na bunda dos outros – pra machucar mesmo – não é safado só quando é garoto. É safado a vida toda. Mas aposto que, depois de toda aquela baboseira que eu falei, a mãe dele vai pensar sempre nele como o sujeito tímido e modesto pra burro, que não deixou a gente elegê-lo chefe da turma. Certamente vai pensar, não se sabe nunca. As mães não são lá muito espertas nesse tipo de coisa.“
(Página 61)
E o capítulo 10, onde o Caulfield conhece três garotas num night club e fica contando pra gente como elas são jecas e tal, e fica mentindo pra elas que viu um astro de Hollywood entrar no salão e depois desaparecer rapidinho, só pra ver a cara de desespero das três idiotas caçadoras de celebridades.
E pra encerrar, vou colocar aqui os três últimos trechos (porque se tivesse que reproduzir aqui todos os trechos e frases que eu sublinhei, esse ia virar um post interminável). São comentários irônicos e perspicazes, como quase todos os que o protagonista nos lança. Aí vão:
1 – “O que me impressionou é que, bem ao meu lado, tinha uma dona que chorou durante a droga do filme todo. Quanto mais cretinice aparecia, mais ela chorava. A gente podia pensar que ela estava chorando porque era bondosa pra cachorro, mas eu estava perto dela e sei que não era. Tinha um menininho com ela, chateado pra burro e com vontade de ir ao banheiro, mas ela não o levou de maneira nenhuma. Ficou o tempo todo dizendo pra ele ficar sentado quieto e se comportar. Era tão bondosa quanto uma porcaria de um lobo. De cada dez pessoas que choram de se acabar com alguma cretinice no cinema, nove são, no fundo, uns bons sacanas. Fora de brincadeira.”
(Página 137)
2 – “(..) De certo modo, também era meio deprimente. Porque a gente ficava pensando no que ia acontecer com todas elas. Quer dizer, depois que terminassem o ginásio e a faculdade. A maioria ia provavelmente casar com uns bobalhões. Esses sujeitos que vivem dizendo quantos quilômetros fazem com um litro de gasolina. Sujeitos que ficam doentes de raiva, igualzinho a umas crianças, se perdem no golfe ou até mesmo num jogo besta como pingue-pongue. Sujeitos que são um bocado perversos. Sujeitos que nunca na vida abriram um livro. Sujeitos chatos pra burro. Mas é preciso ter cuidado com isso, com essa mania de chamar certos caras de chatos. (…) Mas morei com ele uns dois meses, apesar de toda a chatura, só porque ele assoviava bem pra burro. Por isso, tenho as minhas dúvidas quanto aos chatos. Talvez a gente não deva sentir tanta pena de ver uma garota legal se casar com um deles. A maioria não faz mal a ninguém e talvez, sem que a gente saiba, sejam todos uns assoviadores fabulosos ou coisa parecida. Nunca se sabe…”
(Páginas 122 e 123)
3 – “Esse é que é problema todo. Não se pode achar nunca um lugar quieto e gostoso, porque não existe nenhum. A gente pode pensar que existe, mas quando chega lá e está completamente distraído, alguém entra escondido e escreve ‘Foda-se’ bem na cara da gente. É só experimentar. Acho mesmo que, se um dia eu morrer e me enfiarem num cemitério, com uma lápide e tudo, vai ter a inscrição ‘Holden Caulfield’, mais o ano em que eu nasci e o ano em que morri e, logo abaixo, alguém vai escrever ‘Foda-se’. Tenho certeza absoluta.“
(Página 197)
PS: Assim que terminei a leitura do “Apanhador” fiquei me perguntando por que diabos ninguém nunca me recomendou este livro? Porque, lá pelos meus 16, 17 anos, as raras pessoas que poderiam me indicar coisas nunca haviam me dito: “lê isso, é importante”. Ou mesmo depois, quando eu já estava numa ambiente cultural muito mais inspirador, por que ninguém me deu esse livro de presente, ao invés de coisas como Proust ou Thomas Mann, que apesar de essenciais, eu nunca consegui ler? De qualquer maneira, ganhei esse livro de um amigo agora, já com 30 anos de idade e por sorte ainda conservo alguma coisa dos meus 20 e poucos… Portanto, recomendo àqueles que não conhecem este clássico contemporâneo que o leiam o quanto antes. E apesar de eu mesmo ser a prova de que não é de forma alguma um livro pra ser lido até uma idade limite, sempre corremos o risco de vermos nossa imaginação e nossa sensibilidade envelhecerem mais depressa do que imaginamos. E como isso ocorre por motivos diversos e incompreensíveis, pode acontecer a qualquer momento, basta estar distraído o suficiente. Eu mesmo já vi casos assim! E se isso acontecer, meus caros, fodeu: não há chapéu vermelho, nem carrossel girando embaixo de chuva, nem “poça d’água com um arco-íris de gasolina dentro dela” que possam tirá-los do entorpecimento que isso causa.
Abaixo, um vídeo com um trecho do ótimo Seis Graus de Separação (Six Degrees of Separation), adaptado de uma peça homônima, escrita pelo próprio John Guare, roteirista e diretor deste filme, onde o impostor Will Smith conta pros ricaços de Manhattan porque O Apanhador no Campo de Centeio é imprescindível. Assim como a imaginação.
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1º DE JANEIRO DE 2010
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O MEU ANIVERSÁRIO
Wake Up, do Arcade Fire (do primeiro disco deles, Funeral, e também a mesma que tá no trailer do Onde Vivem os Monstros). Pra quem ainda não conhece, aproveita e assiste eles tocando com o Bowie. Sim, é meu aniversário!
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A VIDA NÃO É UM FILME… SÃO VÁRIOS!
Foi também um mês de assistir a muitos filmes. Entre eles um documentário impressionante chamado Enron - Os Mais Espertos da Sala, sobre o escândalo financeiro que abalou a estrutura econômica dos EUA no início da década. Finalmente consegui entender o que levou aquela grande corporação à falência e porque o evento foi tão traumático para o povo americano. Ironicamente, o lance me lembrou muito o meu último namoro. Talvez por essa coisa de alto investimento em ações supervalorizadas ou que nem sequer existiam, desvio de fundos para empresas paralelas, etc. Enfim, esse tipo de trasheira.
Revi muita coisa também: uma delas foi o Z, do Costa Gavras, que eu já nem sequer lembrava direito como era, só que tinha gostando muito na época em que assisti pela primeira vez. E outra vez constatei que é ótimo! Cinema em estado de perplexidade plus senso apurado de narrativa!
“Paralelamente os militares proibiram:
Cabelos compridos, mini-saia, Sófocles, Tolstoi, Eurípedes, greves, Aristófanes, Ionesco, Sartre, Albee, Pinter, liberdade de imprensa, sociologia, Beckett, Dostoievsky, a música moderna, a música popular, a matemática moderna e a letra Z, que significa, em grego antigo, ‘Ele está vivo‘.”
Outro que eu andei revendo foi O Último Imperador, do Bernardo Bertolucci. Apesar do roteiro bem arquitetado, da produção impecável e do reconhecido talento do diretor, o filme tá longe de figurar entre os melhores da carreira dele. Mas, apesar disso, tem cenas/sequências já clássicas. E uma das mais inesquecíveis do filme é protagonizada pela Joan Chen – a chinesinha do Twin Peaks (aquela que fica com a alma presa num móvel depois que morre, lembra?). É um trecho de quando personagem dela se percebe presa numa espécie de salão de espelhos, onde só as imagens fazem algum sentido. Incomodada, constata tristemente que todos ali querem ficar naquele mundo por mais dez mil anos, se tiverem tempo e poder o suficiente pra isso.
E um que dispensa apresentações:
Charlotte: I’m stuck. Does it get easier?
Daqueles raros filmes que eu revisito de tempos em tempos e que sempre preserva o mesmo frescor da primeira vez.
E por útimo, fui ao cinema assistir ao Amor Sem Escalas, do Jason Reitman, no dia mesmo em que estreou. Interessante… Pena que o George Clooney é o protagonista e pena que a coadjuvante teen seja TÃO ruizinha e irritante. Mas o roteiro é muito bom e a direção (ainda que imperfeita) ajuda bastante. É um retrato do “homem líquido”, o indivíduo contemporâneo que o Bauman dissecou em seus livros. Só que desta vez flagrado num momento de repé existêncial. Tem coisas que só acontecem em filmes.












