5h35 da manhã. Na sacada, como tem sido costume nessas noites quentes, lendo umas coisas bem boas nuns blogs por aí e ouvindo música. Porra, não consigo largar o Songs For Drella … !!! …
“my skin’s as peal as like outdoors moon, my hair’s silver like a Tiffany watch“
(sim, eles tão falando daquela bixa louquíssima e genial mesmo!)
… larguei um pouco o Dylan de lado pra ficar com o Lou. Escolhas, é como eles chamam lá fora. Sei lá como eu mesmo chamo, pois não pretendo nominar as coisas boas, só aceitá-las. Tem sido bom com o Lou e com o John. Tenho me sentido empolgado como há tempos não me sentia com qualquer manifestação de expressão artística. É certo que devo estar me auto-enganando, primeiro porque eu sou bom nisso, depois porque tenho lido e visto um monte de coisas incríveis que me fazem sentir um cem número de sensações diferentes e até mesmo contraditórias… mas é que música me ganha, sabe? É fácil, quando tem música no meio. Talvez por que eu seja um apreciador do silêncio. E também porque eu sou um falador compulsivo, por isso preciso dos momentos onde nada está ali pra me fazer falar ou ouvir, mas quando se trata de música… no caso do “…Drella”, eu não canso de ouvir. Pelo menos até agora.
“It’s a Czechoslovakian custom my mother passed on to me“
Daqui dá pra ver o sol nascendo e com ele vem a sensação de que de agora em diante qualquer coisa pode acontecer. E pode mesmo: aceitei o convite do Bruno G. Barreto pra ficar vendendo os livros de fotos dele durante sua vernissage, que vai ser dia 04 de Dezembro. Não vou poder encher a cara, ele avisou, mas em compensação vou ganhar uns trocados, algo que tem sido bem raro na atual conjuntura, feita de 12 projetos escritos desde Janeiro e dos quais 9 foram recusados… nem sei se acredito mais nas possibilidades dos outros 3 serem aprovados, mas algumas coisas não sou eu que decido, anyway… Eu só tô aqui, escrevendo e vendo o nascer do sol - é só o que eu sei fazer da vida. Um dia que nasce pode significar um dia a mais ou um dia a menos também, depende de como a gente sente uma coisa assim e isso pode ser lido de maneiras diversas também.
“Open House“
E tenho me sentido meio aventureiro ultimamente. Começou quando uma amiga me perguntou, enquanto bebíamos e falávamos sobre a vida: “o que tu vai fazer depois que terminar a Feira?” veio um silêncio (eu realmente gosto da companhia dele): pela primeira vez em anos eu não sabia a resposta. Pra falar a verdade eu não consigo lembrar uma única ocasião na minha vida onde eu NÃO soubesse o que iria fazer a seguir. Sempre fui muito cuidadoso nesse ponto, talvez porque eu saiba bem o que quero pra mim e aonde quero chegar (mesmo que ainda não saiba bem quem e quantos eu sou - o que às vezes me traz alguns problemas e atrasos no trajeto). Ou pode ser porque, até então, nunca ninguém havia me feito tal pergunta bem numa fase onde nem eu mesmo sei direito o que vou fazer. Então, enquanto eu me esforçava pra responder, alguma coisa meio que se rompeu na minha cabeça, como um derrame, com sangue coagulando dentro do meu cérebro e tudo; um desnorteamento e um calor que só me possibilitaram responder, meio aflito, meio liberto: “não sei. Absolutamente, não sei”. Desde lá, cada dia que se passa tenho considerado uma espécie de, hum, não quero dizer presente, porque é uma metáfora piegas e ao mesmo tempo não expressa exatamente o que eu quero dizer… sinto como se cada dia fosse uma espécie de bônus. Não, também não! Uma “vidinha” no videogame, é isso! Não, não… uma vidinha é algo super!, e isso ainda tá por vir… cada dia tem sido mais como um quadradinho na “vidinha” do meu videogame que tem milhares de fases e é feito de muito esforço e algumas decepções. “Ploim! Twilll” Toinhoinhoinhoi… Game Over”. Continue?”. Não, reset mesmo.
“Hello, it’s me“
Sabe o que é? É que o lance é difícil pra quem escolheu o que eu escolhi e não vive de fortunas arrecadadas com esforços alheios. Veja bem: o Bandido tá sem internet, o Ara tá mandando currículos pra empregos em locadoras (eu mesmo já trabalhei numa locadora uma época… é, a gente faz o que pode… Mas não esquenta: hora dessas eles nos publicam por aí e a gente aproveita e aprende de uma vez por todas!). A Alice tá gritando de dor por sentir demais – e que bom que ela tem a coragem de gritar! - e comprando passagens de avião por 5 euros pra poder derramar as cinzas lá de cima. Encontrei ela no fim de semana. Intensa, sempre, até quando fala manso. Gosto disso nela.
“Hello, it’s me… Open House“
Ontem a noite assisti outra vez ao Lady Day. A Melissa Arievo tá incrível na pele da Billie reinventada por ela e o espetáculo tá cada vez melhor. Depois que saímos de lá me ocorreu algo que me deixou um pouco triste, mas que não durou muito pois eu tive a sorte de ser uma noite na companhia de amigos e de bons conhecidos. Andando com eles na rua e vendo o jeito como se comportavam me deu uma vontade de dizer Obrigado… Obrigado por não serem tão pesados; por tratarem as coisas com a leveza que elas requerem às vezes. Acho que é porque eu andei desacostumado com a leveza até um tempo atrás; porque estive lidando com muitas coisas ruins que me disseram que eu era e que eu acreditei que fosse verdade (acredito bastante “nas gentes” por aí pois tenho uma tendência muito grande pra confiar - It’s a Czechoslovakian custom my mother passed on to me -, mesmo que isso seja pouco recomendado pra quem mora nesse “Brooklyn da sensibilidade” que é Porto Alegre). Mas no fim me dei conta que, se as pessoas se enganam até sobre si mesmas, imagina quando se trata dos outros, então, que elas mal conhecem?! Quantos equívocos elas não devem erguer junto com o arco, há muito retesado, só pra que possam seguir em frente.
“They really hated you, now all that’s changed
but I have some resentments that can never be unmade”
Um dia, diante da pergunta que fiz a mim mesmo sobre quem, afinal, eu era, criei uma auto-definição que, meses depois, o Pirandello abençoou com seu aceno nas páginas de um livro: “Também sou“.
“You hit me where it hurt I didn’t laugh
your diaries are not a worthy epitaph“
Por isso, na próxima vez, apenas siga. Isso vai bastar pra que as flechas que sobrevoam os céus com intenções amordaçantes caiam sobre as cabeças como se fossem suaves gotas de chuva.
“The way to make friends, Andy, is invite them up for tea“
E o Sol já tá aparecendo aqui, forte e desafiador. Ele dá a sensação de que sabe exatamente pra que vem. Bom isso no Sol. Já a Lua meio que disfarça a sua chegada. Quando nos damos conta, ela já tá lá, branca e pela metade. Mordida como uma maçã prateada.
“Fly me to the moon
fly me to a star“
Alguém escreveu que a Lua é a rainha dos disfarces. Se for assim, então o Sol é a certeza daquilo que se é.
E resta ainda a definição do Rimbaud:
“Toda a lua é atroz e todo o sol, amargo”.
Então, cidadãos respeitáveis, na próxima vez em que alguém os visitar, lembrem-se de abrir bem as portas das suas casas, cedendo passagem ao visitante, simplesmente, sem impor a ele como deve se comportar por ali, pois as pessoas são - por natureza - diferentes umas das outras. E caso vocês sintam vontade de dizer isso (“as coisas não são melhores ou piores, apenas diferentes“), digam no momento mesmo em que sentirem, e de preferência enquanto o outro ainda os puder ouvir, e não depois, quando o tal visitante já tiver partido, pois isso seria como tentar preencher os espaços da casa com palavras pronunciadas numa língua morta, quando já nada mais cabe ali, exceto o silêncio - esse bom e velho amigo, companheiro nas noites sem música, nos dias sem sol e nas horas de fome, seja por comida ou por tudo aquilo que ainda se quer ser.
“Hello It’s me. Goodnight, Andy…
…Goodbye, Andy.“












