(Este texto foi publicado originalmente no site Laikaclub.com, mas antes disso havia sido escrito para ser apresentado no programa Colunas de Teatro, da Band News FM, onde foi lido numa versão inicial pela atriz e apresentadora Deborah Finocchiaro, no dia 12 de Março de 2011. Para ouvir o programa, clique aqui).
por Diones Camargo*
Durante dias pensei em jeitos de me apresentar e estrear essa que será a minha coluna mensal aqui neste site. Imaginava, não sem certa razão, que o primeiro texto deveria ser algo impactante, algo que capturasse imediatamente a atenção dos leitores. Com esse objetivo, digamos, pouco modesto, me vi diante da dúvida a respeito do que escrever: o que poderia interessar a leitores que eu ainda não imagino quais sejam e que provavelmente ainda não conhecem o meu trabalho como escritor e dramaturgo. “Sobre o que escrever?” – o grande dilema dos autores no mundo todo agora aqui, na minha frente, piscando insistentemente na tela do computador. Decidi então escrever sobre o próprio ato da escrita – o grande clichê de autores no mundo todo – mas que, felizmente, quase sempre funciona.
As pessoas me perguntam por que eu escrevo. Por que, dentre tantas formas de expressar aquilo que eu filtro do mundo, eu optei pelas palavras? Respondo sempre que é por dois motivos: primeiro, porque eu adoro ficar sozinho – aprecio o silêncio e sinto que sou uma boa companhia para mim mesmo – e, pra um escritor, há poucas coisas mais importantes do que isso; segundo, porque esta é a melhor forma que encontrei pra organizar as minhas ideias. Numa época como a nossa, em que vivemos cercados de informações, imagens, ruídos e discursos contraditórios, uma pessoa pode passar a maior parte da sua existência tentando dar algum sentido a coisas que, por natureza, não têm sentido algum. Por isso, ao escrever, eu crio a ilusão – pessoal e momentânea – de que tudo finalmente se encaixa, mesmo que de um jeito por vezes caótico. Em outras palavras: eu me entendo como sujeito a partir daquilo que vejo à minha frente, materializado através da escrita, que é sem dúvida a minha maior paixão e o meu grande desafio.
Normalmente, a pergunta acima vem acompanhada de outra, mais difícil de ser respondida: “e por que narrativa ficcional?”. Por que não me valho da minha desenvoltura com as palavras e me dedico apenas a produzir longos ensaios ou artigos acadêmicos, por exemplo, que me trariam títulos e mais títulos dentro das universidades, os quais eu poderia pendurar na minha sala e então me vangloriar deles pro resto dos meus dias (mesmo que eu nunca venha a fazer nada de memorável em outros aspectos da minha vida)? A resposta que me vem à cabeça é: “porque eu adoro ouvir histórias!” Adoro ouvir relatos e minha imaginação se envolve com eles, como se a narração pudesse ser transformada a qualquer momento (e, de fato, pode). Talvez por isso, por eu gostar tanto de ouvir outra pessoa contando como ela enxerga o mundo e como o mundo faz o seu trajeto dentro dela, é que meu impulso é o de participar dessa tradição, criando eu também as minhas próprias histórias, ou recriando histórias que eu aprendo com os outros.
Porém, algumas vezes, uma última dúvida persiste: “por que contar histórias NO teatro?” Por que, tendo certo talento para trazer à vida personagens e situações inventados, eu fui optar logo pelo terreno mais incomum para um escritor, cuja obra obtém muito mais espaço e destaque quando escrita em prosa, ou mesmo se criada em forma de roteiro cinematográfico para posteriormente ser transformada em um filme, por exemplo. “Por que o Teatro?”. E é a partir daí que eu já não sei mais responder. Aí então eu me pego no meio do caos que existe de mim. Nesse lugar revolto e paradoxalmente harmônico, penso apenas que é porque eu amo o teatro, mas sei que pensar nesse amor não esclarece nada sobre ele e não exclui as outras possibilidades. É o que sinto, simplesmente. Sei que para algumas pessoas a paixão pelo teatro e pelas palavras muitas vezes parece contraditória, mas de fato esses elementos estão intimamente conectados, como amantes que estão ligados às juras de amor que trocam entre si. E por fim, sem saber responder a todas as perguntas do mundo, eu, um cara afeito às palavras, me calo diante do mistério das paixões.
* DIONES CAMARGO é dramaturgo e escritor, autor das peças Hotel Fuck, Nove Mentiras Sobre a Verdade, Andy / Edie, Parque de Diversões, além das inéditas Elevador, Peça Comercial e O Tempo Sem Ponteiros. É também dramaturgista dos espetáculos Peru, NY, Teresa e o Aquário, O Mapa e Buarqueanas. É criador do blog Normal People Bore Me, onde escreve regularmente. Em breve pretende publicar o seu primeiro livro de contos.


