Começo com um post escrito lá no dia 04 de Fevereiro e que ainda não havia sido publicado por falta de – adivinhem! – revisão! Pois aí vai:
Dia desses fui ao cinema com meu bom e velho amigo Francisco “Francis” Ribeiro para finalmente assistirmos à aguardada versão americana do livro Millennium: os Homens que Não Amavam as Mulheres. Bom, preciso admitir que apesar de ser uma boa diversão, passa bem longe do que David Fincher conseguiu em 1999 com seu clássico Clube da Luta. Permitam-me aqui um parêntese: eu fui um dos poucos que tiveram a sorte de assistir a este filmaço na tela grande; assisti no mesmo dia em que um estudante de medicina e psicopata acima de qualquer suspeita (muitas vezes estudantes da área da saúde e psicopatas convivem juntos dentro do mesmo corpo; acredite em mim, eu sei do que eu tô falando…); pois esse maluco entrou com uma metralhadora em um cinema de SP e atirou em várias pessoas durante a sessão desse filme, matando três pessoas e ferindo outras cinco. Um dia depois tiraram de cartaz em todo o país. (pra quem quiser ler detalhadamente sobre o tal crime num texto publicado na época dos crimes, CLIQUE AQUI, mas já vou avisando que é uma reportagem que foi publicada na Veja, ok? Portanto, prepare-se pra ler algumas bobagens e absurdos e forma de texto jornalístico sério).
Outra coisa: preciso deixar bem claro que durante a sessão não me parecia óbvia a “sacada” da narrativa e por isso a sensação que eu tive foi a de um soco no estômago… sei que pra alguns sabichões por aí não foi assim; pra alguns tudo parecia óbvio desde o começo; quanto a isso só posso dizer uma coisa: pena. Perderam a chance de sentirem o chão se abrir e a respiração trancar durante um filme… isso livro técnico nenhum dá a vocês, só a experiência mesmo… mas vai ver foi porque vocês viram no DVD ou na TV, muito tempo depois, quando todo mundo já tinha comentado sobre o assunto). Ah, e mais uma coisa: fodam-se se se vocês não sentiram nada! Vocês provavelmente não sentem metade das coisas às quais experienciam.
Bom, voltando do Millennium: talvez por eu não ser um desses fãs da trilogia escrita pelo sueco Stierg Larsson – esses que tanto têm se manifestado pelas páginas da web dizendo que adoraram a adaptação, que a acharam muito fiel ao livro e mais um monte de adjetivos -, talvez por isso eu tenha achado o filme longo demais (não arrastado, mas desnecessário mesmo, sabe?). O roteiro, que é muito mais uma narrativa estendida até onde dá do que necessariamente uma narrativa dramática, é a típica amostra de que às vezes a tal fidelidade a uma obra reduz um roteiro a um amontoado de situações ocas (já que não há no cinema o tempo necessário para o desenvolvimento de atmosferas e situações que a literatura consegue facilmente apreender e propagar). No caso de Os Homens que Não Amavam as Mulheres, o roteiro antecipa em blocos coisas que, se espalhadas, seriam muito mais impactantes e interessantes do ponto de vista da ação dramática; a partir de certo ponto tudo começa a se esvaziar; toda a tensão, toda a curiosidade pela investigação, todo o interesse pelos personagens que surgiram vão dando lugar a uma série de eventos motivados apenas por uma leve impressão plantada lá no início da história e que já não ecoa mais. Mas tudo bem, o filme tem o seu charme, isso é indubitável… e sobretudo, tem a ótima atriz Rooney Mara (aquela mesma que aparece no início do A Rede Social interpretando a garota que dá um fora em Mark Zuckerberg depois que esse se mostra um completo cretino), no papel da hacker freak que se junta ao jornalista na investigação que move a trama – a tal da Lisbeth Salander, uma personagem agressiva, enigmática e absolutamente fascinante, interpretada por essa atriz que consegue a façanha de tornar toda a complexa insanidade de Salander em algo verossímel na tela. Além disso temos o Daniel Craig pelado, o que sempre vale o ingresso (aliás, em qual filme ele não aparece pelado, né?! Vejam bem, eu não estou reclamando… tá, tem a Rooney Mara nua também, pra quem curte…). Mas a surpresa fica por conta da presença da Robin Wright, não apenas por ver ela de volta às telas, mas por constatar nos créditos que agora ela se chama Robin Wright apenas, sem o Penn do ex-marido (tá, esse foi meu momento “gracinha sem graça” no texto). Enfim, a prova de que nada dura para sempre.
Millennium: os Homens que Não Amavam as Mulheres
E já que tô aqui, vou aproveitar e falar rapidamente também sobre os outros filmes que concorrem nesse Oscar: conforme escrevi no penúltimo post, o melhor filme da lista é – disparado – “A Árvore da Vida” do Terrence Malick (talvez o melhor filme da década mesmo – ou pelo menos um dos 10 melhores, sem dúvida alguma!), mas como estamos falando de Oscar, sei que este dificilmente levará algum prêmio, então coloco minhas fichas nos outros. Eis aqui algumas (poucas) apostas, baseadas nos (raros) filmes que eu andei assistindo nas últimas semanas :
Os Descendentes: uma boa surpresa, principalmente porque eu achei Sideways uma cretinice sem fim. Lembro que na época fui no cinema com um grupo de amigos (o bom daquela época é que éramos unidos e íamos ao cinema de galera, depois saíamos pra conversar sobre cinema e rir das coisas juntos… o bom daquela época é que a gente ainda ria das coisas!) e então um amigo observou que o equivalente a Sideways seria se ele fizesse um filme na região da serra gaúcha, com todas os seus clichês exóticos pra turista ver. Complemento agora, quase 10 anos depois, dizendo que o equivalente a esse Os Descendentes seria um longa filmado todo nas ilhas de Santa Catarina. Exagero, eu sei: até porque esse novo filme de Alexander Payne é uma obra sensível, um pouco triste e engraçada até, sobre o quanto é difícil ser um ser humano e ter que lidar com sentimentos comuns aos humanos, sem bancar ter que o herói ou o exemplo de seja lá o que for que os outros sempre esperam da gente. Ponto pra George Clooney que está simplesmente arrasador em cena: um ator que sabe ouvir os outros, que reage ao que os outros dizem e não fica se preocupando apenas em qual é o seu melhor ângulo ou onde parar embaixo do spot. Não bastasse o Clooney ter protagonizado dois filmes que eu adoro (E Aí Meu Irmão, Cadê Você, dos irmãos Coen, e Conduta de Risco, de Tony Gilroy, um ótimo filme de suspense contemporâneo, com um roteiro incrível, e com premiada atuação da excelente Tilda Swinton) ele ainda voltou nesse Os Descendentes e provou que é, sim, um grande ator, da mesma delicadeza de um Marcelo Mastroianni.
PS: Eu daria uma indicação de Melhor Atriz Coadjuvante para a ótima Shailene Woodley, a garota que faz o papel da filha adolescente de Matt no filme. Já teve anos em que outras atrizes concorreram tendo feito muito menos, incluise aquela chata, canastrona e completamente sem sal, a tal da Anna Kendrick, que concorreu justamente por sua “atuação” ao lado de Clooney, no filme Amor Sem Escalas, de Jason Reitman, de 20o9.
O Artista: Uma das grandes chatices desse Oscar, o queridinho de Hollywood só é incensado porque coloca a própria indústria do cinema americano em frente a um grande espelho que corrige seus defeitos com um bom photoshop de nostalgia (às vezes a gente ameniza as coisas com o passar do tempo, não é mesmo?). Apesar de se tratar de um filme francês, mudo, em preto e branco e blábláblá no fundo não passa de uma bobagem sentimentalóide sobre um tema interessante (o novo que chega para superar o velho), mas tratada de um jeito tão idiota que até o cachorro do filme consegue ser sem graça! E isso sem falar na interpretação caricata do tal Jean Dujardin. Não tem outra: ainda que esse chato vença o Oscar, a minha estatueta de Melhor Ator vai pro Clooney!
Meryl Streep, em A Dama de Ferro: ela é boa, não se pode negar. Na verdade ela costuma ser ótima! Nesse filme ela está impressionante . E – quer queira, quer não – e o filme só se salva por causa da atuação dela, já que o roteiro é confuso e desastroso ao usar como desculpa a esclerose da ex-primeira ministra britãnica Margaret Tatcher para amontoar os acontecimentos numa sucessão não dramática de fatos e informações políticas distantes da realidade da maioria dos espectadores. Por sorte a edição cumpre bem a tarefa de nos atirar numa corredeira e, em conjunto com a direção razoável, ajuda a nos deixar com uma leve sensação de confusão mental; não fosse por esses recursos paliativos, ficaria mais evidente ainda a mão frouxa da roteirista Abi Morgan.
Mas Meryl Streep está aquilo que todo mundo espera de Meryl Streep. Além do mais, já tá mais do que na hora de levar uma nova estatueta mesmo… mas por algum motivo ela não me surpreendeu tanto em A Dama de Ferro como aconteceu em outros filmes, tais como As Horas, de Stephen Daldry (que foi quando ela me conquistou de fato, depois de anos torcendo o nariz pras atuações dela), ou Adaptação, do Spike Jonze (onde ela tá simplesmente ótima como uma vaca hipócrita, louca, perdida e drogada) e em as Pontes de Madison, do mestre Clint Eastwood (comovente!) ou em O Diabo Veste Prada (onde ela está divertidíssima!). Enfim, tô torcendo por ela, não tem jeito, mas mesmo assim não vi a Viola Davis que dizem que tá ótima e que já arrasou em 2009 quando foi indicada por uma única – e impressionante – cena num filme que tinha em seu elenco, aliás, a própria Meryl: Dúvida, do dramaturgo, roteirista e diretor americano John Patrick Shaley.
Enfim, hoje é noite de Oscar, bebês! Infelizmente as coisas não mudam tanto ou tão rápido pra que a gente seja sempre original, mas eu juro que até me esforço bastante. Anyway, isso de tentar ser orginal o tempo todo me lembra uma fala da peça Um Marido Ideal, de um outro Oscar… o Wilde, é claro (outra gracinha sem graça dessas e tenho certeza que muita gente não vai ler mais nada que eu postar nesse blog):
“(…) Não suporto essas reuniões de pessoas que passam dias juntas. Na Inglaterra elas tentam ser brilhantes no café da manhã. Isto é muito desagradável! Só as pessoas estúpidas são brilhantes no café da manhã (…)”.
Por isso, minha querida e pequena Petit, eu fico aqui, com minha autenticidade plagiadora e não me importo muito, porque no fim das contas tu tá pior que eu neste Oscar, visto já que o teu filme desse ano é “O Artista”… bons sonhos com essa chatice! (sim, minha amada, eu continuo te chineleando publicamente, mas isso porque eu te adoro. Beijos!)






